segunda-feira, 2 de setembro de 2013

|ESTUDO| Rajneesh-Osho e sua Trajetória Circular



 por Octavio da Cunha Botelho

(Obs: este estudo está disponível em versão mais atualizada em:


           
Rajneesh-Osho em seus habituais trajes luxuosos: por
trás desta serenidade escondia-se uma vida tumultuada,
que o levou até à prisão.
Ele se transformou no guru oriental mais popular do mundo na primeira metade dos anos 1980, superando em popularidade os então aclamados líderes de outros Novos Movimentos Religiosos, tais como Swami Prabhupada (líder dos Hare Krishnas), Maharishi Mahesh Yogi (fundador da Meditação Transcendental), Guru Maharaj (da Missão Luz Divina), Reverendo Moon (da Igreja da Unificação) e Sathya Sai Baba. No auge da fama, era comum encontrar livrarias com prateleiras abarrotadas de livros de Rajneesh. Caso deseje ter uma ideia da dimensão da sua produção literária, a edição digital de suas obras, pela Osho International Foundation, reúne 225 publicações, sendo muitas delas registros de suas palestras, quantidade esta que pode ser incompleta, pois alguns autores falam em mais de 500 escritos de sua autoria. O seu sucesso foi tanto que, entre os espiritualistas new agers daquela época, era vergonhoso alguém dizer que não tinha lido um livro de Rajneesh, ou seja, ler e admirar este guru tinha se transformado em uma referencia de espiritualidade, bem como passou a ser um modismo intelectual nos primeiros anos de 1980.
            A repercussão da sua celebridade podia ser medida pela enorme disponibilidade de livros, de sua autoria, nas prateleiras das livrarias. Ele foi o autor que mais vendia entre os espiritualistas new agers.  Quando orientalistas e esoteristas se encontravam, o assunto era sempre Rajneesh. A febre também alcançou o Brasil. Lembro-me de uma ocasião em 1983, quando estava em uma livraria de Brasília, aguardando a abertura da Embaixada da Índia para tirar o meu visto, ao lado das prateleiras de livros sobre esoterismo, então uma garota puxou assunto e iniciamos em seguida uma entusiasmada e reciprocamente confiante conversa, até o momento em que lhe disse que não aprovada as ideias de Rajneesh. Então, imediatamente, a expressão do seu rosto mudou e ela passou a transparecer que não acreditava mais no que eu dizia, consequentemente a conversa esfriou. Isto porque Rajneesh tinha alcançado tanto prestígio no circulo espiritual new age daquela época, que se tornou uma referência para se medir o grau de intelectualidade em assuntos espirituais de um buscador, isto é, para ser um new ager instruído, era preciso ter lido e ser um admirador de Rajneesh.

Carreira inicial

            Rajneesh-Osho (1931-90) nasceu em uma família de doze filhos na vila de Kuchawada, estado de Madhya Pradesh, Índia, seu nome de nascimento era Mohan Chandra Rajneesh Jain, de modo que ele foi criado fora da dominante tradição hindu. Seus pais morreram enquanto era pequeno, então ele foi criado pelos avós, um rico casal jainista (religião fundada por Mahavira, contemporâneo de Buda). Desde cedo, Rajneesh relatou ter tido várias experiências de êxtases, finalmente alcançando a “plena iluminação” na idade de vinte e um anos. Ele se formou na Universidade de Saugar e logo em seguida conseguiu um emprego na Raipur Sanskrit College. Suas palestras criaram muitas controvérsias, por exemplo, ele chegou até a atacar heróis nacionais, tal como Mahatma Gandhi, quem ele ridicularizou chamando-o de “chauvinista pervertido e masoquista” (Urban, 2003: 237). Então,
Rajneesh-Osho fazendo a posição de saudação com
as mãos algemadas, dois agentes federais o escoltam
Rajneesh se transferiu para outra faculdade no ano seguinte, para a cidade de Jabalpur, onde ele sofreu um período traumático de depressão e anorexia, chegou até a tentar suicídio, depois de algum tempo e recuperado, ele recebeu uma promoção para professor em 1960.
Quando a faculdade estava em férias, ele costumava viajar pela Índia palestrando sobre política, sexualidade e espiritualidade. Com o tempo, suas cativantes palestras atraíram um número de comerciantes e empresários ricos. Estes clientes lhe davam doações por consultas sobre desenvolvimento espiritual e sobre vida diária. O rápido crescimento da sua clientela, contudo, foi algo fora do comum, mostrando que ele era um talentoso terapeuta espiritual. Em 1964, um grupo de banqueiros ricos formou um consórcio para sustentar Rajneesh, bem como os retiros de meditação que ele conduzia. Tal como muitos profissionais, cuja clientela cresce rapidamente, ele contratou uma gerente de negócios, ela era Lakshmi, uma mulher da classe alta, bem relacionada politicamente, a qual se tornou a sua primeira secretária particular e chefe administrativa.
            A carreira inicial de Rajneesh refletiu bem seus carismáticos atributos individuais de inteligência, de apelo emocional e de habilidade em comunicar-se diretamente com indivíduos, mesmo quando eles eram parte de uma grande plateia. Ele era altamente enfático, com uma fascinante volatilidade emocional, que atraía tanto os buscadores da Índia, como um pequeno, mas crescente número de europeus e de norte americanos. Atendendo a solicitação dos encarregados da universidade onde lecionava, Rajneesh afastou-se do seu cargo na Universidade de Jabalpur em 1966, e começou a usar o nome de Acharya Rajneesh (Mestre Rajneesh) anunciando que, a partir de então, sua ocupação principal seria a de um líder espiritual. Assim, ele passou a se sustentar de palestras, da realização de acampamentos de meditação e, individualmente, de aconselhamentos a influentes clientes indianos. Rajneesh criticava a política e as religiões institucionalizadas e, ao mesmo tempo, defendia uma sexualidade liberada e mais aberta.
            Sua popularidade aumentou fora da Índia, o que trouxe muitos ocidentais aos acampamentos de meditação sob sua direção, bem como ao seu apartamento em Mumbai (Bombaim), onde também aconteciam aulas de meditação. Então, ele enviou alguns de seus seguidores ocidentais de volta para casa, a fim de fundarem uma rede internacional de centros de meditação. Em 1971, seu séquito cresceu e diversificou, daí ele alterou, mais uma vez, seu nome para Bhagavan Sri Rajneesh, que significa Reverenciável Rajneesh, o Senhor Supremo.
            À medida que o movimento crescia nos anos 1970, uma nova estrutura organizacional surgia. Os seguidores passaram a receber novos nomes, geralmente de reverenciados deuses e deusas hindus, significando seu renascimento espiritual através do voto de renúncia (samnyasa), abrindo-se, cada vez mais, a Bhagavan Sri Rajneesh e renunciando ao seu passado. Ele também pediu aos seus seguidores que usassem uma vestimenta de cor alaranjada, tal como os santos ascetas (samnyasis) da Índia. No entanto, estes novos nomes e a sagrada vestimenta dos ascetas hindus, somados à disciplina sexual e à atitude libertina dos devotos, ofenderam profundamente a população local. Com o tempo, o número de seguidores ocidentais ultrapassou o de seguidores indianos, aumentando assim o auxílio financeiro, o que fez com que, em 1974, ele mudasse a sede de Mumbai para Pune (antiga Puna), ao sul de Mumbai (Goldman, 2004: 122-3).

Rajneeshpuram

Vista aérea da comunidade de Rajneeshpuram
(Cidade de Rajneesh), durou apenas quatro anos.
            Esta nova sede altamente lucrativa, contudo, logo se envolveu em problemas legais e financeiros com o governo da Índia. Então, em 1981, Bhagavan e seus devotos foram forçados a fugir do país “rastreados por alguns milhões de dólares em dívidas, bem como por uma grande quantidade de cobradores de impostos e pela polícia” (Urban, 2003: 237). Anunciando-se como o “messias que a América estava aguardando”, Rajneesh refugiou-se nos EUA. Após uma breve permanência em uma mansão em New Jersey, ele e seu séquito compraram uma fazenda de 64 mil acres na pequena aldeia de Antelope, condado de Wasco, no estado de Oregon, a qual ele batizou com o nome de Rajneeshpuram (cidade de Rajneesh). Rapidamente, a cidade comunitária se transformou em um complexo financeiro notavelmente lucrativo, de modo que Rajneeshpuram acumulou US$ 120 milhões em renda durante os seus quatro anos de existência (Urban, 2003: 237 e Goldman, 2011: 309). Rajneeshpuram transformou-se em uma máquina de fazer dinheiro, lá “os preços se estendiam desde US$ 50 por um dia de introdução à meditação de Rajneesh, até US$ 7.500 por um completo programa de reequilíbrio de três meses” (Urban, 2003: 239). Enquanto isto, o séquito se espalhava pelos EUA, pela Europa, pela Índia, alcançando 25 mil membros iniciados em seu pico, daí transformando-se em um diversificado e internacionalizado complexo de negócios (Urban, 2003: 237-8). De Rajneeshpuram para o mundo, o ‘Rajneeshismo’ se transformou em um modismo internacional entre os espiritualistas na primeira metade dos anos 1980.
            Os objetivos dos seguidores, com a construção da cidade comunitária de Rajneeshpuram, eram, nas palavras de Marion Goldman, os seguintes: “Eles esperavam fundir espiritualidade e materialismo enquanto construíam uma comunidade internacional que pudesse servir também como um retiro e um centro luxuoso de peregrinação para samnyasis de todas as partes do mundo, suplantando o ashram anterior de Pune (Puna), Índia” (Goldman, 2011: 309).  Um fato que chamou a atenção em Rajneeshpuram foi a sua capacidade de atrair pessoas de alta escolaridade e de sucesso profissional, portanto era uma comunidade de intelectuais e não de fracassados, tal como em muitas outras comunidades religiosas. Segundo os resultados da minuciosa pesquisa de Marion Goldman, “a maioria dos samnyasis que viviam na cidade comunitária em Oregon, nos anos 1980, relataram que eles tinham diplomas de quatro anos de faculdade. Uma proporção substancial destes samnyasis representavam o melhor e o mais brilhante da geração babyboom, que tinha sobressaído na faculdade e em suas carreiras subsequentes” (Goldman, 2011: 309). Em seu auge, cerca de seis mil devotos (samnyasis) viviam em Rajneeshpuram (Usborne, 1995: 03).
Rajneesh-Osho durante o passeio diário em um dos seus
96 Rolls Royces em Rajneeshpuram
            Logo após o início das atividades da comunidade, Rajneesh decidiu manter voto de silêncio por três anos, no entanto ele aparecia diariamente, sempre à tarde, em um passeio com um dos seus 96 Rolls Royces, por um trajeto já pré-estabelecido, acenando para os samnyasis, os quais se alinhavam na lateral da rua, com as mãos juntas em posição de reverência, diante da passagem do guru. Excetos em seus passeios diários nos automóveis de luxo, Rajneesh não era mais visto em público, delegando a liderança administrativa à Ma Amand Sheela, sua secretária particular. Naturalmente, uma comunidade tão extravagante como esta não poderia deixar de causar aborrecimentos aos vizinhos pacatos, o que gerou oposição por toda a redondeza, criando um clima de animosidade. O mais escandaloso evento aconteceu no Outono de 1984, quando Sheela e seus auxiliares recolheram cerca de 3 mil moradores de rua, na maioria homens, trouxeram-nos para a comunidade, transformaram-nos em eleitores, em uma tentativa de controlar os resultados das eleições do condado de Wasco, porém o monitoramento estadual de eleitores e o partido de oposição impediram a concretização do plano (Usborne, 1995: 02 e Goldman, 2011: 309-10).
            Logo após o fracasso do plano (1985), Sheela e seus auxiliares próximos fugiram para a Europa. Ela só foi presa em 1990, após extradição para os EUA (Usborne, 1995: 03). Então, assim que a comunidade desintegrou, Rajneesh voltou a falar publicamente acusando Sheela e sua turma de drogar samnyasis dissidentes, de grampo telefônico, de incêndio criminoso, de promover imigração ilegal, de tentativa de assassinato e de desfalque nas contas da comunidade. Ainda mais, em uma revelação chocante, Rajneesh publicamente afirmou que Sheela ordenou que alguns membros do círculo interno colocassem Salmonella (veneno) em uma dúzia de balcões de salada em restaurantes localizados no condado de Wasco, envenenando pelo menos 750 indivíduos. Este foi um teste para incapacitar um grande número de eleitores anti-Rajneesh no dia da eleição (Usborne, 1995: 02). Já, a cumplicidade de Rajneesh nestes crimes ainda não foi provada, logo sua culpa permanece uma dúvida (Goldman, 2011: 310). Em seguida ao colapso, Rajneesh também abandonou Rajneeshpuram e enfrentou uma experiência vergonhosa, pois viajou por mais de vinte países tentado refúgio, mas todos negaram seu visto, inclusive o Brasil, até que, finalmente, o governo da Índia aceitou recebê-lo. Então, ele se reestabeleceu no antigo ashram de Pune. Chegando lá, uma das primeiras iniciativas que fez foi, mais uma vez, alterar seu nome, desta vez para Osho, nome que manteve até sua morte em 1990. Em Janeiro de 1986, Rajneeshpuram foi colocada à venda, hoje o que funciona lá é o acampamento Young Life Camp, um retiro para jovens de propriedade de uma igreja cristã, algumas construções da época Rajneeshpuram foram aproveitadas, mas com alterações (Welch, 2003).
O espirito mercantil era dominante em Rajneeshpuram,
observe a mensagem da faixa ao fundo: "Não fique apenas
em pé aí, compre alguma coisa".
            Uma curiosidade no destino do movimento foi que, mesmo depois dos eventos criminosos nos EUA, inclusive com a prisão de Rajneesh-Osho e da sua secretária, Ma Amand Sheela, a organização continuou bem estabelecida e próspera em Pune, na Índia, onde, após algumas alterações estruturais, ela foi transformada em um retiro, magnificamente belo e luxuoso, que mistura centro espiritual com SPA para ricos, o Osho International Meditation Resort. O historiador da religião Hugh B. Urban analisa assim o destino do movimento: “Talvez o mais surpreendente aspecto do fenômeno Rajneesh não esteja tanto em sua carreira escandalosa na América, mas em sua notável apoteose e em seu renascimento após seu retorno à Índia. Um guru tântrico verdadeiramente global, Rajneesh fez a viagem da Índia à América e de volta à Índia novamente, para, finalmente, alcançar ainda mais sucesso na sua terra natal, em grande parte, por causa de seu status de figura que tinha um numeroso séquito nos EUA e na Europa. Mais incrível ainda foi que, os seus seguidores não foram capazes apenas de racionalizar o escândalo desastroso nos EUA, mas até mesmo de fazer de Rajneesh um mártir heroico, o qual tinha sido injustamente perseguido pelo governo imperialista e opressivo dos EUA” (Urban, 2003: 242). Enfim, por esta curta análise de H. Urban é possível se ter uma ideia do alto grau de fanatismo alcançado pelos seguidores de Rajneesh-Osho, ao ponto de não se incomodarem com os graves eventos criminosos ocorridos anteriormente. Mesmo assim, ele conseguiu renascer das cinzas após os escândalos, portanto é muito curioso notar como Rajneesh-Osho, ao longo da sua carreira, conseguiu atrair tantos seguidores ricos para seu séquito, ele parecia ser um imã de dinheiro.
            Marion Goldman, que esteve em Rajneeshpuram e se tornou hoje uma das principais pesquisadoras do Rajneeshismo, explica assim a sobrevivência e o posterior sucesso do movimento, mesmo após os escândalos nos EUA. “É possível distinguir o progresso no Movimento Osho e sua sobrevivência contínua, embora com uma diluída autoridade central e uma amorfa influência cultural. Primeiro, Rajneesh desprezou Sheela, atribuindo todos os crimes e dificuldades a ela e aos seus auxiliares. Segundo, o movimento desocupou o local da maior controvérsia, dispersou seus membros para outros centros e reivindicou suas sedes originais longe da cidade comunitária abandonada em Oregon. Terceiro, Rajneesh renomeou a si mesmo, o movimento, e as suas sedes. Quarto, ele criou um conselho para cuidar das obrigações organizacionais. Quinto, ele e o círculo interno, que governou após sua morte, redefiniu o movimento como um movimento de meditação e de desenvolvimento pessoal instruído pela filosofia de Osho, Finalmente, após a morte de Osho, o movimento reenfatizou e reforçou seu foco na difusão organizacional, inclusive espiritualidade” (Goldman, 2004: 134). Da explicação acima é possível perceber que, mais do um sincero instrutor espiritual, Rajneesh-Osho foi um esperto ‘empresário espiritual’, cuja esperteza foi passada para seus sucessores, daí o contínuo sucesso financeiro do movimento até hoje.

Os ensinamentos

            Muitos samnyasis (renunciantes), seguidores de Rajneesh-Osho, o caracterizaram como uma mistura de louco, salvador, charlatão e santo (Goldman, 2004: 122). Estritamente falando, em si mesmos, os ensinamentos de Rajneesh-Osho não eram originais, melhor dizendo, eles foram extraídos de uma diversificada mistura de diferentes fontes, sobretudo, Tantra, Yoga, Zen, Sufismo, Budismo, Taoismo, Hassidismo, bem como de pensadores, de instrutores e de autores mais recentes: Nietzsche, Gurdjieff, Crowley, Krishnamurti e de ideias dos movimentos Contracultura e New Age. Hugh B. Urban resumiu assim: “Mais do que promover uma religião no sentido convencional, Rajneesh ensinou uma marca de espiritualidade radicalmente iconoclasta, uma filosofia antinomiana e um anarquismo moral.
Como uma religião ‘sem religião’, ou anti religião, a religião dele era o caminho além da moralidade convencional, além do bem e do mal, e fundada na explícita rejeição de todas as tradições, de todos os valores e de todas as doutrinas. ‘Moralidade é uma moeda falsa, ela engana as pessoas’ ele advertia. ‘Um homem de real compreensão não é nem bom nem mal.
A prática da Medição Dinâmica em Rajneeshpuram, os
praticantes foram instruídos a praticá-la com roupas, 
em razão da presença de fotógrafos, porém observe que 
alguns poucos estão nus.
Ele transcende ambos’. Para Rajneesh, a causa de todos os nossos sofrimentos é a deformante socialização ou o processo de programação de indivíduos pelas instituições culturais, tais como família, escola, religião e governo. Todas as metanarrativas e teorias predominantes sobre o universo são apenas ficções, criações imaginárias usadas por aqueles no poder para dominar as massas. A liberdade só pode ser alcançada através da desprogramação de tais narrativas, libertando-se das limitantes estruturas do passado. As pessoas devem ser desprogramadas e deshipnotizadas. ‘Vocês são programados pela família, pela educação e pelas instituições. Sua mente é como um quadro negro, no qual as regras estão escritas. Bhagavan escreve novas regras sobre o quadro negro. Ele diz a vocês uma coisa e em seguida o oposto que também é verdadeiro. Ele escreve e escreve no quadro negro da sua mente, até que ela se torne um quadro branco. Então, vocês não terão mais nenhum vestígio de programação nas suas mentes’” (Urban, 2003: 239). Ele tinha um estilo jocoso de criticar: “Vocês certamente sofreram uma lavagem cerebral, eu uso uma máquina de secar. E o que há de errado em sofrer uma lavagem cerebral? Lave seu cérebro todos os dias, mantenha-o limpo. Ele é apenas uma lavanderia religiosa de atualização” (Urban, 2003: 329).
Em razão de palestrar quase sempre e de escrever tanto, e tão afoitamente, os seus ensinamentos são flagrantemente contraditórios. Tanto que, até ele mesmo reconhecia e procurou se justificar: “Por que eu digo contradições? Eu não estou ensinando filosofia aqui. O filósofo precisa ser muito consistente, perfeito, lógico e racional. Eu não sou um filósofo. Eu não estou aqui dando para vocês um dogma consistente ao qual vocês podem se prender. Meu inteiro esforço é dar a vocês uma ‘não-mente’” (Urban, 2003: 241). Sendo assim, torna-se difícil sistematizar os ensinamentos de Rajneesh-Osho, ou seja, escrever um compêndio ou um manual sistematizado de suas doutrinas parece ser uma tarefa complicada. Ou como David G. Bromley e Susan J. Palmer explicam: “Rajneesh desenvolveu um complexo conjunto de ideias que desafia a elaboração de um simples resumo, porque Rajneesh acreditava na prioridade da experiência sobre as ideias e que o mundo incorpora inconsistência e um inter-relacionamento dinâmico de opostos” (Bromley, 2007: 140).
Enfim, ao mesmo tempo em que a sua sortida mistura de doutrinas religiosas atraiu muitos admiradores e seguidores, outros intérpretes a consideram uma deformação de todas estas doutrinas. Enquanto que, para os céticos, o Movimento Rajneesh-Osho foi mais um surto de religiosidade do século XX, com uma nova formatação e um novo arranjo, para atrair os crédulos, em uma época e para um público escolarizado que, cada vez mais, tornava-se secular, portanto na contra mão do sentido das sociedades com melhor qualidade de vida e dos indivíduos mais esclarecidos respectivamente.

O guru do sexo

Embora não fosse tudo, o elemento sexual era uma ênfase nas ideias e nas práticas do movimento, daí que Rajneesh-Osho ficou conhecido como o “guru do sexo” (Urban, 2003: 235s). Para o historiador H. Urban, quanto ao Tantra, “a versão de Rajneesh-Osho é a transformação em mercadoria e a comercialização da tradição” (Urban, 2003: 236). A prática da sua ‘meditação dinâmica’ é entendida, por muitos de fora do movimento, como uma orgia sexual.
A Meditação Dinâmica no ashram em Pune, Índia,
nos anos 1970, a desinibição fazia parte do
treinamento espiritual.
Para este pesquisador, Rajneesh-Osho “foi um dos primeiros indianos a viajar para a América e importar sua própria marca de ‘neo-tantrismo’, vendida para a cultura consumidora americana no final do século XX”. O que ele fez foi uma “transformação do sexo em mercadoria”, bem como uma “espécie de transformação do êxtase em mercadoria”. Para este historiador das religiões, ele foi “o mais notável guru do sexo do século XX”. E mais, “Rajneesh oferecia tudo que os ocidentais imaginavam que o Tantra fosse: um culto de amor livre que prometia a iluminação, uma excitante comunidade radical. Rajneesh encaminhou-se confortavelmente para o papel de Messias do Tantra. Em grande parte por causa de Rajneesh, o Tantra ressurgiu como um culto New Age nos anos 1970 e 1980” (Urban, 2003: 237).
Rajneesh definia e interpretada o Tantra assim: “O Tantra é a suprema ‘não religião’ ou ‘antireligião’, uma prática espiritual que não exige ritual e moralidade rigorosa, mas, ao invés disto, livra o indivíduo de tais repressões. O Tantra é liberdade – liberdade de todos os construtos mentais, de todos os jogos mentais, o Tantra é libertação. O Tantra não é religião. Religião é um jogo da mente. O Tantra descarta todas as disciplinas” (Urban, 2003: 239-40). Rajneesh dizia: “O Tantra é rebelde. Eu não o chamo de revolucionário, porque não existe nada de político nele. É uma rebelião individual. É uma escapulida individual das estruturas e da escravidão. O futuro é esperançoso. O Tantra se tornará cada vez mais importante...” (Urban, 2003: 240).
No mais forte contraste com as instituições sociais estabelecidas, o Tantra não nega a vida e o corpo, melhor dizendo, ele é a suprema afirmação da paixão, fisicamente, do prazer. Ele é a suprema religião ‘apenas faça-o’, que celebra a vida em toda sua transitoriedade e contingência: o Tantra aceita tudo, vive tudo. Rajneesh-Osho declarava: “Isto é o que o Tantra diz: o Caminho Majestoso – comporte-se como um rei, não como um soldado. O Tantra celebra a natureza humana em suas dimensões mais defeituosas, fracas e mesmo aparentemente perversas. Se você é ganancioso, seja ganancioso, não se importe com a ganância”. E mais; “a aceitação tântrica é total, ela não separa você. Todas as religiões do mundo, exceto o Tantra, têm criado personalidades divididas, têm criado esquizofrenia. Elas dizem que o bem tem que ser alcançado e o mal negado, e que o demônio tem de ser negado e deus aceito. O Tantra diz que uma transformação é possível. A transformação vem quando você aceita o seu ser total. O ódio é absorvido, a cobiça é absorvida” (Urban, 2003: 240).
Fotos policiais de Rajneesh-Osho e de sua secretária Ma
Anand Sheela
Sobretudo, o Tantra gira em torno do sexo, um poder que é, ao mesmo tempo, a mais intensa força na natureza humana e também a mais severamente distorcida pela sociedade ocidental. Porque o Ocidente Cristão Tradicional suprimiu a sexualidade, Rajneesh-Osho argumentava: “é a sexualidade que deve ser libertada se os discípulos modernos desejarem atualizar completamente seu eu interno. A repressão cristã tem criado muitos bloqueios no homem, onde a energia se tornou encolhida dentro de si mesma, se tornou estagnada, não é mais atuante. A sociedade é contra o sexo, ela criou um bloqueio...”.
Em oposição à atitude ocidental que nega a vida, o Tantra é o caminho que aceita tudo, sobretudo, o impulso sexual. Como o poder mais forte na natureza humana, o sexo torna-se a energia espiritual mais forte quando é plenamente integrada e absorvida. De modo que, muitas práticas ensinadas por Rajneesh-Osho envolviam sexo grupal. “Terapias intensivas”, tal como ele as chamava, as quais eram efetuadas para realizar uma catarse seguida pela transformação da consciência. Assim, o supremo objetivo das práticas tântricas é precisamente alcançar esta plena autoaceitação, amar a nós mesmos intensamente e completamente, com todos os nossos pecados, vícios, cobiças e desejos sexuais, e reconhecer que nós já somos perfeitos. Nas palavras de Rajneesh-Osho: “Esta é a coisa mais fundamental no Tantra, isto é, você já é perfeito... A perfeição não tem de ser alcançada. Ela simplesmente precisa ser percebida, uma vez que ela já está aí, O Tantra oferece a você a iluminação aqui e agora, sem prazo, sem adiamento...” (Urban, 2003: 240-41).
Antes de terminar este estudo, é preciso esclarecer que esta interpretação do Tantra de Rajneesh-Osho é extremamente controvertida. Nem todos os intérpretes admitem que o Tantra seja tão focado no sexo. Ademais, o Tantrismo é uma tradição multiplamente dividida em distintas correntes (hindu, budista, jainista, lamaísta, Shingon, etc.), a qual, mesmo dentro de cada uma destas correntes, desdobra-se em inúmeras subdivisões, portanto a versão deste extravagante e manipulador guru tântrico acima é mais uma dentre tantas muitas outras (Kaviraj, 1966; Waddell, 1972; Chattopadhyaya, 1978; Bhattacharyya, 1987; Urban, 2003 e Einoo, 2009).
           

Obras consultadas

BHATTACHARYYA Benoytosh. An Introduction to Buddhist Esoterism. Delhi: Motilal Banarsidass Publishers, 1989.
BHATTACHARYYA, N. N. History of the Tantric Religion. New Delhi: Manohar Publications, 1987.
BROMLEY, David G. (ed.). Teaching New Religious Movements. London/New York: Oxford University Press, 2007, 140s.
BRUCE, Steve. Religion in the Modern World: From Cathedrals to Cults. Oxford: Oxford University Press, 1996, p. 178s.
CHATTOPADHYAYA, Sudhakar. Reflections on the Tantras. Delhi: Motilal Banarsidass Publishers, 1978.
EINOO, Shingo (ed.). Genesis and Development of Tantrism. Tokyo: University of Tokyo, 2009.
GOLDMAN, Marion. When Leaders Dissolve: Considering Controversy and Stagnation in the Osho Rajneesh Movement em Controversial New Religions. James R. Lewis (ed.). London/New York: Oxford University Press, 2004, p. 119-37.
_________________ Cultural Capital, Social Networks and Collective Violence at Rajneeshpuram em Violence and New Religious Movements. James R. Lewis (ed.). London/New York: Oxford University Press, 2011, p. 307-23.
KAVIRAJ, Gopinath. Aspects of Indian Thought. Burdwan: The University of Burdwan, 1966, p. 175-240.
KING, Richard and Jeremy Carrette. Selling Spirituality: The Silent Takeover of Religion. London/New York: Routledge, 2004, p. 153-8.
NAGARAJ, Anil Kumar. Osho, Insights on Sex em Indian Journal of Psychiatry, vol. 55, issue 06, January 2013, p. 268s.
OSHO. Tantra: The Supreme Understanding. Osho International Foundation, 1st edition 1975; online edition 2010a
______ Tantric Transformation. Osho International Foundation, 1st edition 1977; online edition 2010b.
----------- Christianity: The Deadliest Poison and Zen, The Antidote to all Poisons. Osho International Foundation. 1st edition 1989; online edition 2010c.   
SALIBA, John A. Psychology and the New Religious Movements em The Oxford Handbook of New Religious Movements. James R. Lewis (ed.). London/New York: Oxford University Press, 2004, p. 323-32.
SANDERSON, Alexis. The Saiva Age em Genesis and Development of Tantrism, Shingo Einoo (ed.). Tokyo: Unversity of Tokyo, 2009, p. 41-349.
URBAN, Hugh B. Tantra: Sex, Secrecy Politics and Power in the Study of Religion. Berkeley: University of California Press, 2003.
USBORNE, David. Strange Days When the Guru Came to Town em The Independent, London: July 27, 1995, p. 2-3.
WADDELL, L. Austine. Tibetan Buddhism, With Its Mystic Cults, Symbolism and Mythology. New York: Dover Publications, 1972.
WELCH, Bob. Rajneeshees’ Ranch Still a Spiritual Mecca. Eugene (Oregon): The Register Guard, May 29, 2003, p. D-1.


Websites:
Osho International Institute: www.osho.com
Osho International Meditation Resort: http://www.osho.com/Main.cfm?Area=medresort
Osho talks: http://osho.tv/




segunda-feira, 22 de julho de 2013

|ESTUDO| Sínodo do Cadáver, o Julgamento Macabro do Papa Defunto



por Octavio da Cunha Botelho
           
 
Pintura de Jean-Paul Laurens, 1870, reproduzindo o
Sínodo do Cadáver, ocorrido em Janeiro de 897 e.c.
         Em regra geral, o fato que impressiona ou que comove costuma levar as pessoas a formar conceitos apressados, de alguém ou de uma instituição, a partir do impacto do evento testemunhado, bem como generalizar a concepção. O exemplo mais frequente de generalização na atualidade, no mundo religioso, é o constante bombardeio de notícias, pela imprensa sensacionalista, sobre os atos terroristas dos muçulmanos, o qual leva os leitores e os espectadores a conceberem o Islamismo como uma religião terrorista em sua totalidade.
            Diante disto, é preciso esclarecer que o estudo abaixo tratará de um evento chocante, outros o entendem como cômico, na história papal, porém não deve ser entendido como que toda a história do papado fosse marcada por líderes do passado com tão alto grau de insanidade. Embora sejam muitos os casos de imoralidade e de loucura de alguns pontífices, em certos momentos da história, alternando conforme a época, a ocorrência não é constante, mas sim intermitente.

Exibição do triunfo e dissimulação do erro

Uma ocorrência comum na história da cultura é a tentativa de cada seguimento cultural de esconder os fracassos e, por outro lado, divulgar os triunfos. As ciências, as filosofias, as artes, a política, as religiões, etc., todas procedem assim, de modo que a história de cada seguimento cultural é o relato dos seus triunfos e, ao mesmo tempo, o encobrimento dos seus fracassos e dos seus erros. As culturas ideológicas (política, religião, etc.) são as que melhor sabem fazer isto, e a religião desenvolveu este artifício com muita maestria, pois ela só relata aos seus seguidores o lado triunfante e glorioso da sua história.
            Sendo assim, muitos católicos são levados a pensar, a partir do que lhes informa a Igreja Católica, que a história papal é um “mar de rosas”, pois apenas são divulgados os feitos santos e gloriosos dos papas do passado. Enquanto papas recentes como João XXIII (1881-1963) e João Paulo II (1920-2005) estão sendo canonizados, para se tornarem santos, por outro lado, existiram outros pontífices, no passado, tão diabólicos e insanos que, ao invés de santificados, deveriam ser canonicamente “diabolizados” ou “insanizados”; isto é, do mesmo modo que existe o processo de canonização de santos, se o Catolicismo atentasse para o seu lado imoral, deveria existir também o processo de “diabolização” de papas, de maneira que, então, existiriam os papas santos e os papas diabólicos concomitantemente, daí a história papal estaria mais bem contada pela Igreja.

“Panelinha” italiana         

Quando conhecemos a história papal, uma persistência chama a atenção: o monopólio italiano. Dos 266 papas até hoje, 212 foram italianos, restando apenas 54 papas para as outras nacionalidades (17 franceses), portanto uma autêntica “panelinha” italiana (Kelly, 1988).  Historicamente, sabemos que esta “panelinha” nem sempre cozinhou uma macarronada de papas santos, pois alguns papas foram cozidos com o forte tempero da imoralidade e da insanidade nesta panela, o que resultou numa indigestão moral.
Bem, de todos os eventos paranoicos na história papal, nenhum é mais inacreditável do que o julgamento do papa defunto (Formoso), conhecido como Sínodo do Cadáver, realizado pelo papa Estevão VI (ou VII) em Janeiro de 897 e.c. O episódio é tão bizarro que chega a ser cômico, sendo assim apropriado para um roteiro de comédia. Walter Ullmann o denominou “comédia do cadáver” (Ullmann, 2003: 112). O conhecimento deste evento leva muitos a pensar que se trata de uma conspiração de seguimentos rivais do Catolicismo, de tão absurdo. Alguns historiadores o apontam como o mais curioso evento na história da Igreja Católica, porém eu acrescentaria, com base na minha experiência em estudos comparativos entre as religiões, que este episódio é o mais paranoico na história geral das religiões civilizadas, só é possível encontrar eventos com este grau de bizarrice nas religiões indígenas.

A historicidade e as suas fontes principais

            Qualquer um que ler, pela primeira vez, sobre este horrendo e inacreditável episódio, com muita possibilidade, será levado a pensar que se trata de um boato criado por seguidores das correntes rivais do Catolicismo ou de uma zombaria inventada por ateus debochados, a fim de depreciar ou de zombar da dignidade papal respectivamente. Entretanto, o mais surpreendente é que a historicidade deste episódio é confirmada tanto por historiadores de dentro ou de fora da tradição católica. Em um ou outro relato, é possível, encontrar acréscimos de autores sensacionalistas que, a fim de aumentar a carga depreciativa, inserem em seus escritos fatos indevidamente documentados sobre o episódio para comover o leitor, em regra geral sem mencionar a fonte latina. Assim, o estudo abaixo procurará evitar utilizar-se destes escritos suspeitos.           
Uma página manuscrita do Antapodosis,
de Liutprand de Cromona, século X e.c.,
 uma importante fonte histórica.
Mesmo entre os registros considerados históricos, existem consideráveis divergências nos relatos, uma vez que foram escritos por partidários rivais, o que representa uma dificuldade para os historiadores. Então, sendo assim, este estudo tentará se orientar pelos relatos que sejam mais coincidentes.
As principais fontes latinas, que relatam o Sínodo do Cadáver, utilizadas pelos historiadores são:
- A Antapodosis, editada no Corpus Christianorum pelo historiador do século X, Liutprand de Cronoma.
- Os Annales, descritos por Hincmar, editados no Monumenta Germaniae Historica Scriptores, vol. I, p. 507.
- A Ata do Concílio de Ravena de 898 e.c., a qual revoga as decisões do Sínodo do Cadáver, traduzida ao francês e publicada por Joseph Duhr, 1932.
- O Auxilius und Vulgarius, texto latino com uma introdução em alemão por Ernst Dummler e publicado em Leipzig, 1866.
- A Invectiva (panfleto anônimo)
- O Liber Pontificalis (The Book of the Popes), uma coleção de biografias papais, desde o apóstolo Pedro até o papa Pio II (1464), compilada no século VI, depois completada por outros autores, vol. II, p. 229.
            A ata do Sínodo do Cadáver não sobreviveu, no entanto, das fontes acima, o Auxlilius und Vulgarius é uma compilação de obras contemporâneas, uma vez que Auxilius de Nápoles foi ordenado padre em Roma pelo papa Formoso, transformando-se em seu fiel defensor. Outra fonte contemporânea e também importante é a Ata do Concílio de Ravena de 898 e.c., reunião ocorrida logo após o Sínodo do Cadáver de 897 e.c., traduzida e publicada por Joseph Duhr em Le Concile de Ravenna, La Réhabilitation du Pape Formose, 1932, onde as ocorrências do sínodo são relatadas (Mann, 1910: 76-85 e Kelly, 1988: 116).

O contexto

            O Sínodo do Cadáver aconteceu durante um período de instabilidade política na Europa, o qual refletiu na estabilidade da liderança da Igreja, em uma época quando o Sacro Império Romano do Ocidente estava começando a desmoronar, isto é, fim do século IX e.c., dando lugar à gradual formação dos feudos, conhecido como “período da anarquia feudal”, portanto marcado por muita rivalidade política e os papas permaneciam no meio do fogo cruzado das disputas de poder, bem como, em quase todos os casos, na obrigação de se posicionarem de uma lado ou de outro. De modo que este foi um século quando o papado foi ocupado por muitos papas, alguns por um curto período de tempo, portanto uma fase de pontificados curtos. Assim, “não é sem justificativa chamado de ‘o século negro’ do papado” (Ullmann, 2003: 112).

Formoso, o réu defunto

Papa Formoso (815-96 e.c.), o réu
defunto no Sínodo do Cadáver
            Ele exerceu seu papado de 891 a 896, nasceu em 815, provavelmente em Roma, dotado e bem educado, foi nomeado bispo na cidade do Porto em 894, provou ser um brilhante missionário. Porém, ele enfrentou difíceis problemas políticos na Itália, quando já eleito papa, pois seu predecessor tinha coroado o duque Guido III de Spoleto como imperador. Em Abril de 892, foi forçado a recoroar Guido em Ravena e, ao mesmo tempo, coroar seu filho Lamberto como coimperador. No entanto, o domínio da dinastia de Spoleto incomodava a Santa Sé, então, por volta do Outono de 893, ele apelou para Arnulfo, o rei dos Francos Orientais, para que ele salvasse Roma da tirania dos Spoletos. Após repetidos apelos, Arnulfo decidiu invadir a Itália e em Fevereiro de 896, Roma foi tomada. Guido estando então morto, Formoso coroou Arnulfo, o líder dos germânicos, em Fevereiro de 896. Mas, logo em seguida, Arnulfo foi comedido de paralisia e teve de deixar Roma, para se dirigir à Alemanha, logo após sua partida, Formoso estava morto. Em meio a toda esta rivalidade política, Formoso atraiu amargos e implacáveis inimigos, que incluíam Lamberto, filho de Guido III, uma vez mais governante de Roma e seu sucessor Estevão VI (Kelly, 1988: 114).
            Este último não teve o menor escrúpulo em sujeitar Formoso diante da mais macabra humilhação. Nove meses (Janeiro de 897) após sua morte, o cadáver de Formoso foi exumado e colocado em um trono com as completas vestimentas papais, foi então solenemente processado em um tribunal simulado, presidido pelo próprio Estevão VI, e um diácono permaneceu ao lado do “réu-cadáver” respondendo às acusações (Kelly, 1988: 114). Um episódio tão inacreditável que mais parece uma cena de filme de comédia.

O Sínodo do Cadáver

            Tal como brevemente descrito acima, este é o nome dado ao simulado julgamento macabro ordenado e presidido pelo papa Estevão VI (ou VII) em Janeiro de 897 e.c. Os relatos dos autores variam conforme as fontes utilizadas, extraídos quer das fontes primárias (latinas) ou das exposições de segunda mão de autores mais recentes. Dentre as obras consultadas, o relato de Horace K. Mann, o mais extenso em língua inglesa, embora antigo (1910), reproduz uma bem elaborada síntese do evento a partir dos documentos latinos com abundante citação das fontes. Ele relata o episódio assim: “O horrível sínodo que agora vamos descrever, felizmente único na história do Cristianismo, aconteceu provavelmente no mês de Janeiro de 897. (...) Tão logo Arnulfo deixou a Itália, sua autoridade aí chegou a um fim, Beregorio e Lamberto imediatamente dominaram regiões da Itália e mataram os oficiais que se opunham a eles. Ageltrudes e Lamberto fizeram-se senhores de Roma e fundaram alí um instrumento de seu espírito de vingança contra o homem que tinha favorecido seu rival Arnulfo.”
          “O corpo do infeliz Formoso, ainda mais ou menos inteiro, mas lógico, meio decomposto, foi desenterrado e trazido ante uma assembleia. Vestido com as completas vestimentas papais, o cadáver foi colocado numa cadeira e um diácono foi designado para defender o pontífice acusado. Uma acusação formal foi feita contra ele: ‘Quando uma vez deposto, ele não deveria ter exercido as funções de seu cargo, e se as exerceu, ele não deveria ter se transferido de uma sé para outra’. Com estes enquadramentos, Formoso foi condenado”.
 
O papa Estevão VI (ou VII), quem convocou
e presidiu o Sínodo do Cadáver em 897 e.c.
           “Contudo, com este Sínodo do papa Estevão, Formoso foi excomungado e suas ordenações declaradas nulas e sem efeito. Então, seu cadáver foi sujeito a mais bárbara violência, ele foi despido de suas vestimentas sagradas, até à sua roupa de penitência, com a qual o pontífice tinha mortificado seu corpo em vida. Vestido então com roupas de leigo, o cadáver, após dois dedos da mão direita terem sido arrancados (os dedos utilizados para abençoar), foi enterrado (Fevereiro 897), pela ordem de Estevão em um lugar reservado para o enterro de peregrinos. Falou-se até mesmo que, quando o cadáver estava sendo arrastado para o enterro, sangue fluía de sua boca sobre o chão. (...) Mas, a carreira de violência de Estevão foi destinada a ter vida curta. Ele foi preso, vestido como monge, amarrado com correntes e lançado numa cela e, por volta do fim de Julho ou começo de Agosto, estrangulado” (Mann, 1910: 79-83).
            Outro relato bem documentado, embora mais breve, é o de J. N. D. Kelly no The Oxford Dictionary of Popes (1988), ele descreve o sínodo assim: “O único evento importante de seu pontificado (Estevão VI), que foi registrado, é o macabro ‘Sínodo do Cadáver’, o qual ele presidiu em Janeiro de 897, e que foi instigado, em parte, por Lamberto e sua mãe Ageltrudes, resentidos de Formoso, por ter coroado Arnulfo, mas também pelo amargo ódio pessoal que ele e uma poderosa facção dos romanos alimentavam contra o falecido pontífice (Formoso). Neste tribunal simulado, o cadáver de Formoso foi desenterrado, vestido com as completas vestimentas papais e colocado em um trono, foi solenemente acusado com as acusações de perjúrio, de violar os cânones que proíbem a transferência de bispos e de cobiçar o papado. Um diácono permaneceu ao seu lado e respondeu por ele. Formoso foi culpado, e todos os seus atos foram declarados nulos e sem efeito, incluído as ordenações, seu corpo foi finalmente lançado no rio Tibre”. (...)
            “Nos meses seguintes, Estevão exigiu que os clérigos ordenados por Formoso emitissem cartas reconhecendo suas ordenações como inválidas. Sua pavorosa conduta, contudo, não permaneceu por muito tempo impune. Poucos meses depois, houve uma reação popular e os ultrajados aliados de Formoso, encorajados pelos relatos de milagres efetuados pelo cadáver humilhado, talvez também pela interpretação do súbito desmoronamento da Basílica de Latrão, como um julgamento divino, se levantaram em rebelião, depuseram Estevão, despiram-no de sua insígnia papal e o lançaram numa cela, onde ele, logo em seguida, foi estrangulado” (Kelly, 1988, 115-6; para outros relatos resumidos, ver: Platina, 1479: 237; Herbermann, 1913: 289-90; McCabe, 1939: 211; Farrow, 1942: 85; Ullmann, 2003: 112 e para um relato poético: Browing, 1872: vol. IV, 2s).
            Entretanto, após a publicação da Ata do Concílio de Ravena (Duhr, 1932: 541), convocado pelo papa João IX, sucessor de Estevão VI, para revogar as decisões do Sínodo do Cadáver, alguns historiadores começaram a contestar a hipótese de que foi Lamberto de Spoleto quem instigou a realização do Sínodo do Cadáver, uma vez que neste documento é mencionada a presença deste governante de Roma no concílio. De acordo com a Ata do Concílio, Lamberto explicitamente aprovou a anulação, então se fosse Lamberto o arquiteto da humilhação de Formoso, certamente não poderia estar presente e, menos ainda, consentir com a decisão do Concílio de Ravena. No entanto, esta contestação não é unanime entre os historiadores e as opiniões continuam divididas sobre quem foram os verdadeiros instigadores da realização do Sínodo do Cadáver.

As consequências

            Em Dezembro de 897, o papa Teodoro II convocou um sínodo que anulou o Sínodo do Cadáver, reabilitou Formoso e ordenou que seu corpo, que tinha sido recuperado do rio Tibre, fosse enterrado na Basílica de São Pedro com as vestimentas papais. Em 898, o papa João IX também anulou o Sínodo do Cadáver ao convocar dois sínodos, um em Roma e outro em Ravena (mencionado acima), os quais confirmaram as decisões de Teodoro II, ele também ordenou que a ata do Sínodo do Cadáver fosse destruída e proibiu qualquer sínodo de pessoa morta.
            Entretanto, o papa Sergio III (904-11) que, como bispo também participou do Sínodo do Cadáver como juiz auxiliar, derrubou as decisões de Teodoro II e de João IX, com isso aprovando a condenação de Formoso.
            Bem, daí é possível perceber o grau de tumulto que vivia o papado naquela época.


Obras consultadas

BROWING, Robert. The Ring and the Book. London: Smith, Elder and Co., 1872, vol. IV, p. 2s.
DUHR, Joseph. Le Concile de Ravenne in 898: La Réhabilitation du pape Formose em Recherches de Science Religieuse, nr. 22, 1932, p. 541.  
DUMMLER, Ernst (tr.). Auxilius und Vulgarius. Leipzig: Verlag Von S. Hirzel, 1866.
FARROW, John. Pageant of the Popes. New York: Sheed & Ward, 1942.
HERBERMANN, Charles G. (ed.). The Catholic Encyclopedia, vol. XIV. New York: The Encyclopedia Press, Inc, 1913, p. 289-90.
KELLY, J. N. D. The Oxford Dictionary of Popes. Oxford: Oxford University Pess, 1988.
LOGAN, F. Donald. A History of the Church in the Middle Ages. London: Routledge, 2002.
MANN, Horace K. The Lives of the Popes in the Early Middle Ages, vol. IV. London: Kegan Paul, Trench, Trubner & Co., 1910.
McCABE, Joseph. Crises in the History of the Papacy. New York: G. P. Putnam’s Son, 1916.
_______________ A History of the Popes. London: Watts & Co., 1939.
PLATINA, Bartolomeo. The Lives of the Popes (english edition by W. Benhan). London: Griffith Farran & Co., 1st latin edition 1479.
ULLMANN, Walter. A Short History of the Papacy in the Middle Ages. London: Routledge, 2003.


quarta-feira, 26 de junho de 2013

|ESTUDO| A Cientologia e a Pseudocientificidade da Dianética


Por Octavio da Cunha Botelho e André Luzardo
           
O ator Tom Cruise discursando em um auditório da
Igreja da Cientologia; um dos adeptos mais ilustres.
Dentre as tantas maneiras de classificar as religiões, os historiadores as dividem naquelas que surgiram no período da “plena escuridão da história”, e aquelas que nasceram na “plena luz da história”. As primeiras, obviamente, são aquelas que foram formadas nos tempos mais antigos, ocasião quando a prática de registros era precária, ou até mesmo inexistente, bem como a escrita e a documentação um privilégio de poucos alfabetizados.  Assim, o que conhecemos delas limita-se, quase na totalidade, aos relatos da tradição, cuja confusão com mitos e lenda, dificulta a identificação dos fatos históricos. Por outro lado, nas religiões surgidas na “plena luz da história” o registro é farto e bem documentado, de maneira a nos transmitir uma clara ideia de como uma religião surge e se desenvolve em seus primeiros anos, com base em fontes de fora do relato tradicional.
A partir do momento quando as religiões começaram a surgir com uma mensagem dirigida para toda a humanidade, diferente do passado, quando a mensagem era dirigida para um povo exclusivamente, estas modalidades de religiões passaram a ser denominadas pelos historiadores de Novos Movimentos Religiosos (alguns autores preferem o termo ‘cultos’, enquanto outros desaprovam, em vista do sentido pejorativo que a palavra culto adquiriu com o tempo). As datas divergem, porém o mais coincidente é apontar o surgimento da Sociedade Teosófica, na segunda metade do século XIX, cujo ensinamento era dirigido para toda a humanidade, portanto a primeira religião de escopo universal, como o ponto de partida. Do mesmo modo, a Igreja da Cientologia é um destes Novos Movimentos Religiosos, curiosamente fundada por um escritor de livros de ficção científica, L. Ron Hubbard (1911-86), depois do fracasso da tentativa de promover a sua grande descoberta, a Dianética, como uma ciência, daí foi obrigado, para sobreviver, a inserir a Dianética em um contexto religioso, então fundou a Igreja da Cientologia, episódio que será relatado adiante.  Cercada de polêmicas, ela é conhecida internacionalmente pela sua capacidade de atrair grandes celebridades, pois reúne em seu séquito estrelas de grande reputação como Tom Cruise, John Travolta, Kirstie Alley, Kelly Preston e outros figurões.   
O estudo abaixo é mais um trabalho em parceria, desta vez com André Luzardo da Sociedade Racionalista-USP. Ele contribuiu com a segunda parte do artigo, a qual explica ao leitor o que é a Dianética, doutrina central na Cientologia, com suas teorias, isto é, a Mente Reativa e os Engramas; bem como a sua terapia, a Auditoria e o E-meter, e conclui com uma avaliação crítica da sua cientificidade. Gostaria de lhe agradecer pela gentileza em colaborar.

Considerações iniciais

L. Ron Hubbard (1911-86), criador da Dianética e fundador da
Igreja da Cientologia
Um relato do que é a Cientologia é incompreensível sem o conhecimento da personalidade e do caráter da sua figura central, o seu fundador, o carismático e controvertido L. Ron Hubbard. Nas palavras do historiador da religião, Dorthe R. Christensen: “Ele não é uma figura sem significado, ele é a única fonte suprema e o recurso legitimador das alegações terapêuticas e religiosas da Igreja. L. Ron Hubbard e Cientologia sempre foram e sempre serão, muito provavelmente, inseparáveis” (Christensen, 2004: 227). Entretanto, suas biografias são enormemente divergentes, pois de um lado ele é retratado, por seus seguidores e admiradores, como um explorador dedicado, que realizou distantes viagens, inclusive para o Oriente, como um engenheiro brilhante, bem como um humanista, um educador, um administrador, um artista e um filósofo. Também, como um herói militar e um estudante com uma bem sucedida carreira acadêmica, e que a sua grande descoberta, a Dianética, “solucionou o enigma da mente humana” (Urban, 2012: 335 e 338). Por outro lado L. Ron Hubbard é descrito por seus críticos, por jornalistas, por ex membros e por algumas decisões judiciais como um mentiroso, um charlatão e um insano, com a acusação de que quase tudo que ele escreveu sobre si mesmo era falso (Gardner, 1991: 246 e Urban, 2011: 26 e 2012: 335). Ademais, tal como o seu próprio filho, L. Ron Hubbard Jr., revelou: “mais de 90 por cento do que meu pai escreveu sobre si mesmo é mentira” (Urban, 2011, 26). Os relatos de suas viagens e de suas proezas foram tão exagerados que um membro dissidente da Cientologia observou: “ele contou tantas histórias de suas façanhas, na América do Sul, nas Índias Ocidentais e em lugares, que ele teria de ter pelo menos 483 anos para ter tempo para fazer todas aquelas coisas” (Urban, 2011: 33). Os sinais de fraudes eram tão claros que o também cientologista dissidente, Gerald Armstrong, designado para ajudar a escrever a biografia de Hubbard, descobriu durante a sua pesquisa que “virtualmente tudo que Hubbard tinha dito sobre sua vida era falso” (Urban, 2011: 26-7). Enfim, o relato oficial da Igreja da Cientologia sobre a vida de Hubbard é considerado pelo pesquisador D. R. Christensen, não como um conjunto de fatos históricos, mas sim como uma “mitologia hagiográfica”, isto é, uma narrativa idealizada e composta, bem auto conscientemente, a partir de temas míticos (Christensen, 2004: 227-58 e Urban, 2011: 27-8). Enfim, L. Ron Hubbard inventou sua própria mitologia.
            Alguns autores desmentem as suas façanhas da seguinte maneira. “Ele nunca foi um aventureiro fanfarrão ou um destacado oficial naval. Embora ele alegasse ser um físico, seu conhecimento de ciência era desprezível (...) sua miopia o manteve fora de Annapolis (uma importante academia naval nos EUA). Sua única educação superior foi na escola de engenharia da George Washington University, onde ele se afastou após dois anos de notas horríveis. Seus quatro anos na Marinha, durante a Guerra, são resumidos em um relatório dizendo que ele ‘carecia de qualidades essenciais de liderança (...) não considerado qualificado para o comando e promoção’. O mais próximo que ele chegou de um combate foi no comando de um caça submarino. Em seu cruzeiro experimental, Hubbard confundiu um depósito magnético com um submarino e sua batalha contra um inimigo inexistente lhe custou a perda do comando”. E também, “Hubbard foi um covarde fingido que tinha feito tudo para evitar estar em ação (de combate)” (Gardner, 1991: 246 e mais detalhes em Melton 2009: 20).
            Sua personalidade é também avaliada de modo divergente. Alguns o descrevem como uma figura carismática, envolvente e sedutora. Para aqueles que o conheceram pessoalmente, ele tinha uma personalidade envolvente, ele dominava a cena com sua perspicácia e seu inesgotável estoque de anedotas, era um charmoso inescrupuloso e persuasivo, não só em um grupo social, mas também com as mulheres. Com seu imponente cabelo vermelho, sua boca grande e um rosto gorducho, Hubbard é descrito por aqueles que o conheceram como uma personalidade que, quer encantava ou repudiava imediatamente, dominando as conversas e encantando com as anedotas e sua inteligência vívida. Quando ele falava, ninguém conseguia lhe roubar o espaço. “Até mesmo os mais ferozes críticos de Hubbard, tal como o ex cientologista Jon Atack reconheceu que ele (Hubbard) tinha um impressionante e quase inexplicável poder carismático; era quase impossível, Atack relata, escrever um convincente quadro do carisma de Hubbard ou explicar a notável devoção que seus seguidores sentiam por ele” (Urban, 2011: 54).
Prédio da Igreja da Cientologia em Los Angeles, EUA.
Por outro lado, já os que o detestavam, estes afirmavam que Hubbard era “um vigarista e obviamente um impostor. Mas ele não era um idiota. Ele conseguia encantar qualquer pessoa. Ele transpirava maldade, malícia e estupidez, mas perfeitamente amistoso para se conversar” (Urban, 2011: 30). Alguns autores da época descreveram Hubbard como não apenas um vigarista, mas na verdade como o maior vigarista do século. O seu ex biógrafo Gerald Armstrong afirmou que “ele foi uma mistura de Adolf Hitler, Charlie Chaplin e Barão Munchhausen” (Urban, 2011: 54). O escritor científico Martin Gardner diagnosticou Hubbard como “um homem profundamente perturbado, um mentiroso patológico que se deteriorou de um trapaceiro charmoso para um egomaníaco paranoico, incapaz de distinguir entre fato e sua própria ficção fantástica” (Gardner, 1991: 246).
            Por outro lado, de acordo com o seu próprio relato, Hubbard alegava ter explorado as incontáveis minúcias das tradições espirituais do mundo, do curandeiro de Sioux aos místicos orientais, da psicanálise à hipnose, da cura pela fé e magia à experimentação com drogas. Tentativas foram feitas para descobrir quais escolas e sistemas eram viáveis. Então, suas ideias misturavam Freud, acupuntura, cristais de cura mágica, santuário de milagre, cura pela fé, vodu e narcosíntese. O resultado desta eclética pesquisa foi a Dianética (Dianetics), a sua “revolucionária nova ciência da mente humana” (Urban, 2011: 29). De modo que Hubbard reuniu uma grande quantidade de diversos elementos científicos, ocultos, psicológicos, filosóficos e de ficção científica, remendando-os grosseiramente juntos numa única, nova e surpreendente bem sucedida síntese (idem, 29). De modo que, para milhares de cientologistas pelo mundo afora, que ainda seguem seus ensinamentos hoje, entretanto, Hubbard foi nada menos que um explorador heroico, que revelou os mistérios mais antigos, não só de todos os cantos da Terra, mas também da mente humana (Urban, 2011: 54). Toda esta miscelânea lhe rendeu formidáveis resultados financeiros, pois quando faleceu em Janeiro de 1986, ele somava um patrimônio de US$ 600 milhões (Dehsen, 1999: 90). 
Em razão de tudo isto, o historiador da religião Hugh B. Urban definiu Hubbard mais como um empresário americano e um bricoleur espiritual, este último termo francês no sentido de um criativo reciclador de produtos culturais com a habilidade de encaixá-los em um conjunto coerente, do que propriamente um líder religioso, levando-nos a projetar paralelamente uma dedução de que a Cientologia está também mais para uma “empresa religiosa” do que uma religião no sentido convencional (Urban, 2011: 26 e 29).

Da ficção científica à religião

            Na história das religiões conhecemos casos de tradições religiosas que foram fundadas pelos mais estranhos personagens, porém, uma religião fundada por um autor de livros de ficção científica é um fato muito excepcional. Pois, antes de sua carreira como fundador de uma das mais controvertidas entre as novas religiões do mundo, L. Ron Hubbard era mais conhecido como um autor de pulp fiction altamente prolífero. Começando seu trabalho no início dos anos 1930, ele escreveu um número verdadeiramente estonteante de obras de ficção científica, de fantasia, de mistério e de contos de aventura, se tornando uma das figuras chaves na era dourada da pulp fiction (Urban, 2011: 33). Os anos 1930 e 1940 foram os anos dourados da ficção científica e Hubbard soube aproveitar o momento.
            Ademais, havia, naquela época, uma clara afinidade entre ocultismo e ficção científica, desde a era dourada até os anos 1970, de maneira que os fãs de ficção científica também tendiam a se interessarem pelos reinos sobrenaturais da magia, dos fenômenos psíquicos e das habilidades paranormais. Todos estes temas apareceram na ficção de Hubbard e no início da Cientologia. Ele escrevia de 70 mil a 100 mil palavras por mês, despontando-se entre os mais prolíferos escritores da era pulp fiction. Ele era capaz de escrever sobre aparentemente qualquer assunto e sobre qualquer gênero, dos exploradores de floresta aos mergulhadores das profundezas do mar, do G-men e gangsters, cowboys e azes voadores até alpinistas, detetives e espiões, usando muitos pseudônimos. Pelo menos duas de suas primeiras obras são ainda consideradas clássicas do gênero: o conto de horror pulp, Fear, e sua novela pós-apocalíptica, Final Blackout (Melton, 2009: 19 e Urban, 2011: 33-4).
            Entretanto, Hubbard não saltou diretamente da ficção científica para a religião, antes disto, ele anunciou sua nova “descoberta científica”, a Dianética (Dianetics), o resultado de sua exploração e síntese de uma grande quantidade de diferentes tradições espirituais, psicológicas e filosóficas, para chegar a tanto, ele alegou ter examinado todas as perspectivas conhecidas da mente humana.
Capa da revista Astounding Science Fiction 
onde foi publicado o primeiro artigo sobre a
Dianética de L. Ron Hubbard, em 1950.
Bem, quem ouve os elogios de Hubbard e os dos cientologistas dirigidos à cientificidade da Dianética, pensa logo que a divulgação desta “nova ciência” foi feita em alguma das mais prestigiadas revistas científicas da época: na Nature, na Science, na Scientific American ou em outra revista de uma importante universidade. Nada disto, muito pelo contrário, esta “nova ciência” de Hubbard inicialmente foi publicada, como um artigo, numa revista popular chamada Astounding Science Fiction (Ficção Científica Espantosa), da qual Hubbard tinha sito um colaborador constante, em Maio de 1950. A capa desta edição exibia uma criatura alienígena, com a aparência de um gorila cabeludo e com olhos amarelos de gato, em outras palavras, um monstro. A capa anunciava o artigo de Hubbard com o título de “Dianetics, A New Science of the Mind” (Dianética, Uma Nova Ciência da Mente), o qual não foi apresentado como “ficção científica espantosa”, mas sim como uma nova ciência revolucionária da mente humana, ou seja, uma obra com pretensão de ciência publicada numa revista popular de ficção... uma incompatibilidade. Uma versão expandida desta obra foi então impressa na forma de livro no mesmo ano com o título de “Dianetics: The Modern Science of Mental Health” (Dianética: A Ciência Moderna da Saúde Mental), a qual se transformou, nos anos seguintes, em um best seller (Robinson, 2001: 380 e Manca, 2012: 80). Esta “nova ciência” foi anunciada como nada menos que uma radical revolução para a humanidade, foi comparada à descoberta do fogo e superior à invenção da roda e do arco (Urban, 2011: 43). Isto é, através de uma propaganda acompanhada de sensacionalismo, aparentando mais com o lançamento de um produto atrativo de consumo, portanto muito diferente da discrição habitual da divulgação científica. O escritor científico, Martin Gardner, definiu a Dianética como uma “hilária paródia da Psicanálise” (Gardner, 1991: 247).
”Não foi por acaso que a nova “ciência” da mente de Hubbard foi publicada pela primeira vez numa revista de ficção científica, uma vez que seus clamores e retórica apelavam para o mesmo público que tinha devorado seus contos de ficção por uma década. Astounding Science Fiction não classificou o texto de Hubbard como ficção, mas sua linguagem foi claramente confeccionada para o fã de ficção científica (...) Dianética prometia transformar o cérebro normal do leitor em um cérebro ótimo e assim ajudar o homem em seu processo de evolução rumo a um organismo superior” (Urban, 2011: 43). O próprio Hubbard alegou também que o objetivo da Dianética não era outro que criar uma espécie de novo homem ou Homo Novis com habilidades sobrehumanas. “A pessoa deixa de responder como Homo Sapiens e adquire uma fantástica capacidade de aprender e agir” (Urban, 2011: 43-5 e Rothstein, 2004: 110-1).
Hubbard definiu a Cientologia como “o estudo e o manejo do espírito no relacionamento consigo mesmo, com os universos e com a outra vida”. Para ele “Dianética é uma precursora e um subestudo da Cientologia. Dianética vem das palavras gregas dia (através) e nous (mente ou alma). Dianética é o que a alma está fazendo com o seu corpo” (Hubbard, 2007: 05). Também, ele definiu que os objetivos da Cientologia são formar “uma civilização sem insanidade, sem criminosos e sem guerra, onde o apto possa prosperar e os seres honestos possam ter direitos, e onde o homem é livre para se erguer até às maiores alturas” (Robinson, 2001: 379).

O nascimento da Cientologia

Em seguida, por nunca ter sido reconhecida como ciência, no meio científico, esta nova pseudociência de Hubbard, a Dianética, teve de redirecionar seu objetivo, apesar de nunca ter deixado de ser anunciada como ciência pelos cientologistas. Então, ele tratou de transformá-la em religião, daí iniciou os trabalhos da fundação da Igreja da Cientologia (Church of Scientology). Em razão disto e também pelo descontrole que tinha se transformado a prática da Dianética, quando se transformou numa moda nacional nos EUA, logo após a sua divulgação, Hubbard decidiu organizar a Cientologia, para poder ter controle sobre a sua disseminação.
Hubbard experimentado o E-meter nos tomates,
mais um de seus experimentos pseudocientíficos.
Então, sua pesquisa o conduziu ao reino espiritual e, em 1952, a “filosofia religiosa aplicada” da Cientologia nasceu. Ela foi descrita como um assunto separado da Dianética, uma vez que não tratava apenas da mente, mas também da própria natureza espiritual da pessoa. O objetivo da Cientologia era reabilitar totalmente a natureza espiritual de um indivíduo, incluindo a reabilitação de todas as habilidades e a realização do pleno potencial da pessoa. Daí então, em 1954, a primeira Igreja da Cientologia foi fundada em Los Angeles, California (Robinson, 2001: 380). A religião continuou a crescer durante os anos 1950 e 1960, e muito mais igrejas foram fundadas no mundo. Em 1966, Hubbard afastou-se da sua posição de diretor executivo da Igreja a fim de dedicar-se às pesquisas no nível mais alto de espiritualidade. Em Agosto de 1967, ele formou a “Sea Organization”, um grupo de membros dedicados da Igreja e continuou suas viagens e pesquisa a bordo de vários navios adquiridos pela Igreja (Gardner, 1991: 248). Deste esta época até sua morte em 1986, Hubbard escreveu e publicou materiais sobre os assuntos da Dianética e da Cientologia, como também um número de obras de ficção científica (Robinson, 2001: 380). A Igreja da Cientologia possui atualmente mais de 700 centros em 65 países (Urban, 2012: 335).

Cientologia, um resumo

             A prática principal da Cientologia é a Dianética, uma forma de psicoterapia extraída em grande parte da Psicanálise, com a mistura de ingredientes religiosos e da ficção científica. A Igreja da Cientologia acredita que o homem é basicamente bom, que está buscando sobreviver e que sua sobrevivência depende de si mesmo e de seus companheiros, e da conquista da fraternidade com o universo. Isto é alcançado na Cientologia por dois métodos conhecidos como “auditoria” e “treinamento”. A “auditoria” (aconselhamento de um indivíduo pelo outro) da Dianética e da Cientologia consiste de um “auditor” que orienta alguém através de vários processos mentais, a fim de livrar o indivíduo dos efeitos da “mente reativa” e então alcançar plenamente a natureza espiritual da pessoa. A “mente reativa” é aquela parte da mente que opera com base no estímulo-resposta, e é composta de memórias residuais de dor e incidentes desagradáveis (denominados “engramas”), os quais exercem controle involuntário e inconsciente sobre o indivíduo. Durante esta prática é utilizado um aparelho para detectar e medir a manifestação dos “engramas”, conhecido como E-meter (detector de “engramas”), do sujeito que está sendo submetido à “auditoria”.
            Quando o indivíduo está livre destes efeitos indesejáveis, diz-se ter alcançado o estado de “limpo” (clear), que é a meta do aconselhamento da Dianética. Um indivíduo então passa para níveis superiores de aconselhamento, lidando com sua natureza com um ser espiritual imortal (conhecido na Cientologia como um “thetan”). Os cientologistas acreditam que um “thetan” já viveu muitas vidas anteriores e viverá muitas outras vidas após a morte do seu corpo atual (a doutrina da reencarnação).
            O treinamento da Cientologia consiste de muitos níveis de cursos (1) melhoria da vida diária dos indivíduos fornecendo-lhes várias ferramentas e (2) aprendizado das técnicas de “auditoria”, de maneira que uma pessoa possa aconselhar outras. Os cientologistas falam da presença de um ser supremo como representando o infinito, mas não adoram divindade alguma, ao invés disto, gastam seu tempo na aplicação dos princípios da Cientologia nas atividades diárias. Reuniões regulares na igreja acontecem, contudo, ocupam-se em discutir os princípios da Cientologia e sua aplicação (Robinson, 2001: 380-1).

Controvérsias

            A Igreja da cientologia tem se envolvido em um considerável número de episódios controvertidos desde 1958, tais como as batalhas relativas às questões de impostos, uma batalha de dez anos com a Food and Drug Administration (FDA), quanto ao e-meter usado para assistir a “auditoria” e um conflito com o governo australiano. Também, as controvérsias sobre cultos dos anos 1970 levaram a um número de processos judiciais.
            A mais notável série de eventos na igreja começou em Julho de 1977, quando o FBI realizou uma busca nas igrejas de Los Angeles e de Washington e prendeu muitos arquivos de documentos. A busca foi declarada ilegal, mas os documentos permaneceram na posse do governo e foram abertos à investigação pública. De acordo com os documentos, a igreja estava mantendo arquivos sobre pessoas que ela considerava inimigas, e tinha havido várias tentativas de infiltrar nas organizações anticultos. Como resultado da busca do FBI, alguns membros foram acusados e condenados por roubo de documentos do governo. Os membros condenados foram liberados de seus cargos na igreja, a qual iniciou uma reorganização e o fechamento do Guardian Office.           
As estrelas hollywoodianas Kirstie Alley (esq.),
John Travolta e Kelly Preston em uma festa no 
Celebrity Centre de Los Angeles, EUA.
Problemas com o IRS (Internal Revenue Service), a Receita Federal dos americanos, continuou através dos anos 1980 e 1990, e o IRS moveu ações judiciais contra a igreja questionando o seu status de isenta de impostos. Estes problemas acabaram após uma decisão final em 1993, quando o IRS cessou com todos os litígios e reconheceu a Cientologia como uma legítima organização religiosa. A igreja tem também sido atacada na Europa. Uma das batalhas mais significativas aconteceu na Itália, onde um número de funcionários foi acusado de sonegação de impostos e de vários outros atos criminosos, mas foram quitados e a Cientologia finalmente recebeu reconhecimento judicial como uma religião (para detalhes: Urban, 2011; 155-77).
            Em 1991, a revista Time publicou um ataque à Cientologia numa matéria de primeira página, a qual respondeu com uma grande campanha de relações públicas e com uma extensa série de anúncios no US Today. No início de 1992, a igreja entrou com um processo contra a revista Time, após descobrir que o criador do Prosac, um remédio psiquiátrico que a Cientologia combatia ativamente, tinha sido o principal incentivador da agressão da revista Time à Igreja. Apesar destas controvérsias e de muitas outras, a Igreja da Cientologia destaca-se como uma das religiões que mais cresceu no número de seguidores nestes últimos anos (Robinson, 2001: 381-2 e para aprofundamento: Lewis, 2009: 209-322).

O Project Celebrity

            A Cientologia é mundialmente conhecida pelas celebridades que fazem parte do seu séquito. Dentre as mais conhecidas estão Tom Cruise, John Travolta, Priscilla Presley, Kirstie Alley, Issac Hayes e Nancy Cartwright. No entanto, a Igreja da Cientologia não conseguiu arrebanhar estas celebridades por acaso, ao contrário, foi um trabalho planejado. Nas palavras do historiador da religião Hugh B. Urban: “é facilmente possível ver porque a filosofia básica da Cientologia atraiu os atores em particular. Pois, a Cientologia promete nada menos que desencadear o poder ilimitado do individuo, para libertar o potencial infinito do Thetan, na verdade, despertar a habilidade de criar o seu próprio universo. Se a ideia de criar a sua própria realidade foi atrativa aos leitores de ficção científica dos anos 1950, foi ainda mais atrativa para os atores, para os músicos e para os artistas na esperança de despertarem seu próprio potencial criativo. Em segundo lugar, existe dinheiro envolvido, nem todos podem gastar US$ 400 mil para chegar até os níveis OT (Operating Thetan), mas para um Tom Cruise e um John Travolta, esta importância de dinheiro é provavelmente trivial” (Urban, 2011: 140).
Sede luxuosa do Celebrity Centre em Los Angeles, EUA.
Para se ter uma ideia da fortuna envolvida, de acordo com o New York Post, os maiores doadores à Cientologia são: Nancy Cartwright (atriz de voz), a qual doou US$ 10 milhões, seguida de Tom Cruise e Kirstie Alley (atriz) com US$ 5 milhões cada, John Travolta e Kelly Preston (atriz) com US$ 1 milhão cada e Priscilla Presley (ex-esposa de Elvis Presley) com US$ 50 mil (Urban, 2011: 141). O plano de Hubbard de cortejar as celebridades data desde aos anos 1950. “Hubbard explicitamente alvejava as celebridades como potenciais convertidos e instruiu os cientologistas para cortejá-las” (Urban, 2011: 140). Este esforço foi anunciado em 1955 na revista Ability com o título de “Project Celebrity”. O artigo relacionava uma lista de celebridade incluindo Ed Sullivan, Orson Welles, Ernest Hemingway, Greta Garbo e até mesmo Billy Graham. Estas celebridades foram apontadas como “alvos” a serem “caçadas” como um “jogo” por cientologistas ambiciosos. Hubbard prometeu aos seus seguidores que “se vocês os trouxerem para casa, vocês conseguirão uma pequena placa de comemoração como recompensa” (Urban, 2011: 140). No entanto, nenhuma destas celebridades foi atraída para a Cientologia, mas a igreja conseguiu atrair um número de outras celebridades a partir do final dos anos 1960 em diante. O primeiro Scientology Celebrity Centre foi fundado em Los Angeles, no ano de 1960, e foi seguido pela fundação de centros similares em Nova York, São Francisco, Boston, Toronto e outras grandes cidades (Urban, 2011: 140). De lá para cá, a Igreja da Cientologia só acumula aumento no número de celebridades em seu séquito (para aprofundamento: Cusak, 2009: 389-409).

A Dianética

Em 1950, o escritor de ficção científica Lafayette Ronald Hubbard publicou o livro Dianética: a Moderna Ciência da Saúde Mental (exceto quando indicado, todas as citações a seguir são deste livro). Sem qualquer qualificação em pesquisa científica, Hubbard acreditava ter feito uma série de descobertas (“mais importantes que a roda e o fogo”, tal como exalta a contracapa) sobre o funcionamento da mente humana. De acordo com a sinopse, a Dianética é “muito mais simples do que a física ou a química, se compara com elas na exatidão dos seus axiomas e está em um escalão consideravelmente maior de utilidade.” Afirmações bombásticas e contraditórias aos fatos (a física e química não contém axiomas) abundam: “a fonte escondida de todas as mazelas psicossomáticas e aberrações humanas foi descoberta e técnicas foram desenvolvidas para uma infalível cura”.
Apesar das repetidas alegações de que testes e experimentos foram realizados provando definitivamente as conclusões da Dianética, o livro não contém demonstrações matemáticas, descrições de experimentos científicos ou resultados obtidos por outros pesquisadores. A única fonte é a mente do autor. Este afirma que descobriu os axiomas básicos da Dianética em 1938, e que passou os 12 anos até a publicação dedicando-se a pesquisa. Porém, “muitos dos seus amigos insistem, contudo, que esses 12 anos de pesquisa são inteiramente míticos e que não foi antes de 1948 que a Dianética eclodiu” (Gardner, 1957).

A Dianética e os Engramas

O E-meter (Detector de Engramas) utilizado nas
sessões de Auditoria (Auditing)
Em que consiste então a Dianética? Ela fundamenta-se basicamente no conceito de Engrama, “a única fonte de doenças mentais inorgânicas e doenças psicossomáticas orgânicas”. Os Engramas são gravações, distintas da memória, que recordam de maneira exata todos os estímulos vinculados às situações estressoras. Eles são os resultados da ação da mente reativa, definida como sendo a parte inconsciente, mas sempre alerta da mente humana. Ao contrário da mente consciente (batizada de mente analítica por Hubbard e dita análoga a um computador), a mente reativa é uma imbecil, não pensa e nem age racionalmente, ela se limita a gravar e usar as gravações para produzir ações. Mesmo depois de criados, os Engramas só geram problemas se forem digitados; o que faz um Engrama ser digitado varia, mas geralmente uma situação estressora semelhante a original é suficiente. Uma vez gravado e digitado, um Engrama pode ser reativado por qualquer estímulo externo semelhante aos que ele contém e, também, causar todo tipo de inconveniência: “ele desliga a mente consciente em maior ou menor grau, assume os controles motores do corpo e causa comportamentos e ações que a mente consciente, o próprio indivíduo, jamais consentiria”.
Hubbard fornece o seguinte exemplo de gravação engrâmica: “Uma mulher é derrubada por um golpe. Ela fica ‘inconsciente.’ Ela é agredida e chamada de falsa, que ela não presta, que está sempre mudando de ideia. Uma cadeira cai no processo. Uma torneira está aberta na cozinha. Um carro passa na rua lá fora. O Engrama contém uma gravação de todas essas percepções: visões, sons, tatos, gostos, odores, sensações orgânicas, sensações cinéticas, posição das juntas, sede, etc. O Engrama consistiria de todas as afirmações feitas a ela quando estava ‘inconsciente’: os tons de voz e emoções na voz, o som e sensação do golpe original e seguintes, a sensação táctil do chão, talvez o gosto de sangue na sua boca ou qualquer outro gosto presente, o odor da pessoa que a ataca e os odores do ambiente, o som do motor e pneus do carro passando lá fora, etc.”
Esta é, em resumo, toda teoria Dianética. Há capítulos intitulados “o objetivo do homem”, “as quatro dinâmicas”, “a mente analítica e os bancos de memória padrão”, “os ‘demônios’”, “contágio das aberrações”, “digitando o Engrama” entre outros, mas praticamente tudo depende dos Engramas e da influência destes no organismo. A partir destes elementos, Hubbard tenta explicar a origem de todas as doenças mentais, assim como de muitas outras não normalmente associadas à mente como resfriados, artrite, alergias, problemas nos olhos e tuberculose. Hubbard nos informa que há razões para crer que o câncer e a diabete também são causados por Engramas, mas tem o cuidado de advertir que isso é apenas teoria e que os devidos experimentos ainda não foram realizados. Essa não seria, contudo, uma tarefa difícil, pois como veremos a seguir, usando a metodologia Hubbardiana, é possível demonstrar que todas as doenças têm origem em ou são agravadas por Engramas.
Os Engramas aparentemente exercem grande influência sobre a fisiologia humana. O efeito é ainda mais abrangente, ou assim diz a teoria, se informações verbais estiverem gravadas, pois estas serão interpretadas pela (estúpida) mente reativa. Mas isso não é tudo, Hubbard revela outra descoberta revolucionária: os Engramas podem ser gravados antes mesmo do nascimento. “Onde houver células humanas,” afirma, “há Engramas em potencial.” Questões claramente urgentes como ‘qual seria o correlato fisiológico do Engrama?’ ou ‘como poderia uma célula zigótica desprovida de receptores gravar qualquer estímulo externo?’ são convenientemente ignoradas. A vida no útero revela-se muito perigosa: “Mamãe espirra, bebê fica ‘inconsciente’. Mamãe corre leve e alegremente contra a mesa e bebê amassa sua cabeça. [...] Mamãe fica histérica, bebê forma um Engrama. Papai bate na mamãe, bebê forma um Engrama.” O maior de todos os perigos intrauterinos são as tentativas de aborto: “uma grande proporção de crianças supostamente débeis mentais são realmente casos de tentativas de aborto cujos Engramas colocam-nas no medo-paralisia ou paralisia regressiva e as comandam a não crescer, mas a estar onde estão para sempre”.
O ator John Travolta durante uma sessão
de Auditoria, com o uso do E-meter
O seguinte exemplo ilustra como um Engrama pré-natal pode causar problemas mais tarde: “Engrama 105, digamos, foi um momento de ‘inconsciência’ quando o feto foi nocauteado via mãe, pelo pai. O pai, ciente ou não da criança, exclama ‘sua puta suja desgraçada; você não presta!’ Esse Engrama [...] pode jazer lá por setenta anos e nunca ser digitado. Contém uma dor de cabeça e uma queda, e o ranger dos dentes e ruídos intestinais da mãe. [...] Um dia, contudo, o pai fica angustiado com a criança. A criança está cansada e febril, o que quer dizer que sua mente analítica pode não estar desempenhando bem. [...] E o pai esbofeteia a criança e diz ‘seu desgraçado; você não presta!’ A criança chora. Aquela noite ela tem uma dor de cabeça e está muito pior fisicamente. E ela sente um intenso ódio e medo do seu pai. O Engrama foi digitado.”


A eficiência da Dianética

A “infalível cura” encontra-se na terapia Dianética. O objetivo desta é “produzir um Liberto [Release] ou um Limpo [Clear].” O Liberto é o indivíduo que se encontra no meio do processo de cura e não tem mais estresses e ansiedades. Já o Limpo foi completamente curado e tornou-se quase um super-homem. Sua memória agora é fotográfica, seu raciocínio é rápido, ele é física e moralmente superior. Indivíduos incríveis assim destacam-se facilmente. Se a terapia Dianética consegue atingir tal prodígio, onde estariam os Limpos? Um deles foi apresentado por Hubbard em frente a uma grande audiência em Los Angeles em 1950. Era uma moça chamada Sonya Bianca, uma Limpa que supostamente atingira uma memória perfeita. Gardner (Gardner, 1957) relata o evento: “na demonstração que se seguiu, contudo, ela falhou em lembrar sequer uma fórmula de física (a graduação que ela estava cursando), ou a cor da gravata de Hubbard quando este virou as costas. Nesse momento uma grande parte da audiência levantou e deixou o evento. Hubbard mais tarde produziu uma explicação Dianética elegante para o fiasco. Ele tinha chamado-a para o palco dizendo ‘Pode vir aqui agora, Sonya?’ O ‘agora’ deixou-a presa no momento presente.” Até hoje não há registros da existência de Limpos.

A Auditoria (Auditing)

O processo terapêutico é chamado de Auditoria e o papel de quem o pratica, o Auditor, é remover os Engramas. Isso só é possível travando uma espécie de guerra com o Engrama. Primeiro é necessário fazer o paciente regredir na sua linha do tempo até encontrar uma situação que o auditor identifique como um possível Engrama. O auditor pode pedir que o paciente repita várias vezes essa situação. Atacado, o Engrama revida de maneira emocional; o paciente tende a praguejar, chorar e barganhar. Finalmente atinge-se o momento primário de dor ou inconsciência na vida do paciente, chamado de básico-básico. Nesse momento, o Engrama desaparece e o paciente experimenta grande alívio e felicidade.
Uma sessão de Auditoria com o emprego do E-meter
(Detector de Engramas)
Um dos ramos da Dianética é a Dianética Preventiva. Mulheres grávidas são as que devem ter o maior cuidado: “Se ela cair, deve ser ajudada – mas silenciosamente. Ela não deve carregar peso. E não deve ser forçada ao coito. Pois cada experiência de coito causa um Engrama na criança durante a gravidez.” O parto deve ser feito sob pouca luz e em absoluto silêncio. “E silêncio não quer dizer uma barragem de ‘Sh’s’ pois estes causam gagueira.” Durante a vida pós-natal, silêncio completo também deve ser observado durante as cirurgias ou em qualquer outra situação em que o indivíduo se machuque ou esteja inconsciente.

Reflexão final

No capítulo final, intitulado “Dianética no século 21”, os seguidores de Hubbard apresentam a história oficial do movimento. Repleta de exaltações ao líder e seus feitos incríveis, um deles é particularmente digno de nota: “dentro de dois anos da autoria deste livro que você segura em suas mãos, L. Ron Hubbard tornou-se o primeiro a isolar cientificamente e identificar o espírito humano.” Chave para esta descoberta está o instrumento conhecido como e-meter. Apesar de originalmente ter sido inventado pelo quiropraxista Volney Mathison nos anos 1940, o nome na patente é o de Hubbard. Segundo Ronald, filho de Hubbard: “meu pai obteve os direitos do e-meter em 1952 de Volney Mathison da mesma maneira que obtém todas as coisas – através de fraude e coerção” (Carroll, n.d.). Trata-se de uma versão extremamente simplificada de um medidor da resistência elétrica da pele. Hubbard e seus seguidores, porém, acreditam que o e-meter mede os efeitos de uma energia humana desconhecida associada ao espírito. Com essa descoberta Hubbard eleva-se ao status de líder espiritual e funda a religião conhecida como Cientologia, da qual a Dianética é agora apenas uma doutrina.
É impossível ler as elucubrações de Hubbard sem deixar de notar a influência de outro clássico exemplo de pseudociência: a Psicanálise. Há várias semelhanças, vejamos:

Psicanálise
Experiências infantis emocionalmente traumáticas seriam reprimidas e armazenadas no inconsciente. Ao longo da vida esses traumas poderiam ressurgir de maneira distorcida causando os transtornos mentais. Freud acreditava que poderia identificar estes eventos traumáticos infantis dialogando com o paciente e interpretando seus relatos e sonhos (análise). Uma vez identificados e re-elaborados, estes traumas desapareceriam e o paciente melhoraria.

Dianética
Experiências pré e pós-natais, física e emocionalmente traumáticas são gravadas em Engramas na mente reativa. Ao longo da vida esses Engramas poderiam ser ativados e seu conteúdo distorcido pela mente reativa, então causaria transtornos psicossomáticos. Hubbard acreditava que poderia identificar estes Engramas dialogando com o paciente e interpretando seus relatos (Auditoria). Uma vez identificados e repetidos, os Engramas desapareceriam e o paciente melhoraria.

As famosas interpretações freudianas eram, na linguagem de Karl Popper, infalsificáveis, pois não havia experimento possível que pudesse testá-las. O mesmo ocorre com as hubbardianas; basta encontrar uma interpretação adequada e todos os problemas podem ser atribuídos a Engramas. Além disso, assim como Freud, Hubbard criou uma teoria completamente desconectada do conhecimento científico da época, outra característica típica de uma pseudociência. A Dianética, com seu repertório próprio de conceitos e nomes, é fechada em si mesma e ignora (várias vezes até contradiz) quase tudo que já se conhecia em psicologia e neurociência em 1950.
Movimentos como esses tendem a seguir um de dois caminhos possíveis: 1) após a exaltação inicial, seus seguidores se desiludem, vão aos poucos desaparecendo e o movimento finalmente morre; ou 2) frente às críticas, o movimento se fecha ainda mais até chegar no limite máximo da infalsificabilidade, tornando-se uma religião.

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