segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

|ESTUDO| O Festival Purna Kumbha Mela e o Banho Ritual no Rio Ganges Poluído


por Octavio C. Botelho e Gabriel S. Bassi





Vista aérea do Purna Kumbha Mela de 2001, o maior festival religioso do
mundo, que acontece uma vez a cada 12 anos em Allahabad, Índia.
O estudo abaixo é outro resultado da parceria com Gabriel S. Bassi, dirigente da Sociedade Racionalista da USP. Tal como o estudo sobre a Hajj (Peregrinação Islâmica), postado neste blog em 31/10/2012, eu escrevi a primeira parte sobre o festival e ele a segunda parte sobre o grau de poluição do rio Ganges, o rio sagrado mais adorado do mundo, visto que o momento culminante deste evento religioso é o banho e o ato ritual de beber a água deste rio sagrado que, paradoxalmente, se transformou, com o tempo, em um rio muito poluído. Enfim, a sujeira da água do Ganges se tornou proporcional a sua sacralidade. Mais uma vez, agradeço ao Gabriel Bassi pela sua contribuição.
As datas oficiais do festival Purna Kumbha Mela deste ano são anunciadas com divergência, algumas fontes anunciam que iniciou em 14 de Janeiro, em uma data conhecida na Índia como Makar Sankranti (Festival da Colheita) e terminará em 10 de Março na Maha Shivaratri (a Grande Noite de Shiva). Outras informam que iniciou em 27 de Janeiro, na lua cheia deste mês (Pushya Purnima), e terminará em 25 de Fevereiro, na próxima lua cheia.  Quase tudo na Índia tem divergência, em virtude da multiplicidade de seitas. Os organizadores do evento aguardam a participação de 85 a 100 milhões de devotos desta vez.

O que é o Purna Kumbha Mela

            Este é o maior festival religioso do mundo. O número de participantes é tão grande que aparece no Livro dos Recordes como a maior aglomeração de pessoas do planeta. O último Purna Kumbha Mela aconteceu em 2001, na cidade de Allahabad, Índia, na junção dos rios Ganges e Yamuna, com a participação estimada de cerca de 70 milhões de peregrinos, o que corresponde aproximadamente à população da Alemanha (Scott, 2001: 08). Estritamente falando, o festival acontece na junção destes dois rios e do rio mitológico Saraswati, o qual é mencionado nos livros sagrados do Hinduísmo como localizado naquela região, porém, geograficamente, não está lá, portanto trata-se de um rio fictício. A junção destes três rios é conhecida como Triveni Sangam na cultura hindu. A palavra Kumbha (sânscrito), que significa pote, às vezes aparece escrita como Kumbh, conforme a grafia da língua híndi.

O desfile das Adharas (Comunidades), um dos momentos
atrativos do festival
Em geral, o festival, que tem a duração de um mês, acontece revezando-se em quatro cidades: Nashik, nas margens do rio Godavari; Ujjain, nas margens do rio Shipra; Haridwar nas margens do rio Ganges e Allahabad (também conhecida como Prayag) na confluência dos rios Ganges e Yamuna. Os Kumbha Melas mais importantes (o Purna e o Maha) acontecem sempre em Allahabad. A escolha destas cidades não foi por acaso, pois, segundo uma tradição mitológica dos hindus, foram nestes locais onde caíram as gotas de néctar (amrita) do pote (kumbha) durante a luta entre os devas (deuses) e os asuras (demônios) pela sua posse, tal como será descrita abaixo. O momento culminante do festival é o banho (snana) no rio, uma vez que os devotos acreditam que esta prática apressa a conquista da Libertação (Moksha) do ciclo de nascimentos e mortes. O principal dia de banho (snana) será em 10 de Fevereiro (Domingo), o Mauni Amasvasya Snana.
Sectariamente, o Kumbha Mela é um festival da tradição vaishnava (vishnuista) do Hinduísmo, no entanto, seguidores de outros cultos hindus (Shaiva, Shakta, Ganapatya, etc.) também participam do evento.

A periodicidade do festival

Originalmente, o festival denomina-se Kumbha (pote) Mela (festival), ou seja, Festival do Pote (Mehta, 2010: 42). Entretanto, conforme a regularidade, outros nomes são acrescidos para determinar a periodicidade, sendo que, quanto maior o intervalo, mais importante o festival:
- o Magha Kumbha Mela: acontece todo ano, geralmente em Janeiro (Magha)
- o Kumbha Mela: acontece uma vez a cada quatro anos
- o Ardha (meio) Kumbha Mela: uma vez a cada seis anos
- o Purna (completo) Kumbha Mela: uma vez a cada doze anos e
- o Maha (grande) Kumbha Mela: uma vez a cada 144 anos, ou seja, após doze Purna Kumbha Melas.
Os Naga Sadhus (ascetas nus) comparecem em grande
 número no festival
            Os últimos Purna Kumbha e Maha Kumbha Melas aconteceram em 2001, ocasião na qual os dois coincidiram, portanto uma data importantíssima para a religiosidade hindu. Tão importante que reuniu cerca de 70 milhões de peregrinos (Scott, 2001: 08). O Purna Kumbha Mela anterior a este foi em 1989 e o Maha Kumbha Mela antecedente caiu em 1857, mas permanece dúvida se o festival realmente aconteceu, uma vez que não existe registro.  A suspeita é de que não tenha ocorrido, uma vez que na ocasião acontecia uma revolta na Índia, quando soldados indianos se rebelaram contra as indignidades religiosas e sociais. Daí que civis descontentes deflagraram a Grande Rebelião, a qual só foi suprimida pelo exército britânico em 1859 (Keay, 2000: 436-47). Em razão deste tumulto, é provável que o festival não tenha acontecido.

A escolha do momento e do local

            O revezamento do festival em cada uma destas cidades (Allahabad, Haridwar, Ujjain e Nashik), bem como a escolha do momento, dependem das posições astrológicas do sol, da lua e do planeta Júpiter, previamente calculadas por astrólogos hindus. Então, quando Júpiter está no signo de Aquários (Kumbha Rashi) e o sol e a lua estão em Capricórnio (Makara Rashi), o festival acontece em Allahabad (Prayag) no mês de Magha (Janeiro/Fevereiro). Quando o sol está em Aires (Mesha Rashi), a lua em Sagitário (Dhanus Rashi) e Júpiter em Aquários (Kumbha Rashi), o festival acontece em Haridwar nos meses de Phalguna e Chaitra (Fevereiro/Março/Abril). Quando Júpiter está em Leão (Simha Rashi), o sol e a lua em Aires (Mesha Rashi), acontece em Ujjain no mês de Vaishakha (Maio). E quando o sol e a lua estão em Câncer (Kataka Rashi) e Júpiter em Escorpião (Vrischika Rashi), acontece em Nashik no mês de Shravana (Julho).

A origem mitológica do festival

Tal como quase todos os outros festivais religiosos pelo mundo afora, o Kumbha Mela também tem sua origem em um mito. Trata-se do mito da Samudra Manthan (Batedura do Oceano de Leite) narrado nos épicos Ramayana (Book I, Canto XLV) e Mahabharata (Adiparva, Astikaparva, Seções XVII-IXX), no Vishnu Purana (Book I, cap. IX), no Shiva Purana (Shatarudrasamhita cap. XXII) e, mais extensamente, no Bhagavata Purana (Skanda VIII, caps. 7-12). As narrativas nestes diferentes textos variam em detalhes, mas o que envolve o Kumbha Mela pode ser resumido da seguinte maneira.
A Triveni Sangam, a junção dos rios sagrados
Ganges (Gangá), Yamuna e o mítico Saraswati
Num passado remoto, deuses (devas) e demônios (asuras) selaram um acordo de ambos trabalharem na tentativa de produzirem néctar (amrita) através da Batedura do Oceano de Leite (Samudra Manthan). Após alguns obstáculos e desentendimentos, iniciou-se o trabalho. Quando o Pote de Néctar (Amrita Kumbha) surgiu do Oceano de Leite, deflagrou-se uma disputa por sua posse entre os deuses o os demônios, a qual se transformou, em seguida, numa sangrenta guerra. Até aqui a narrativa deste mito aparece nos textos escritos (Ramayana, Mahabharata, Vishnu Purana e Bhagavata Purana), porém a narrativa seguinte foi conservada apenas através da tradição oral. Esta afirma que a guerra durou doze dias e doze noites celestiais, correspondentes à dose anos no mundo terrestre. Ademais, durante a guerra entre os devas e os asuras, quatro gotas do Néctar (Amrita) caíram do pote (Kumbha) nas localidades de Ujjain, Nashik, Haridwar e Allahabad (Prayag), daí que o festival Kumbha Mela é realizado nestas cidades (Mehta, 2010: 42).

A origem histórica

A documentação para se conhecer a história dos Kumbha Melas é muito escassa e os autores que se aventuram a esboçá-la se contradizem frequentemente, quando não confundem mito com história. O primeiro registro da ocorrência de festivais, com a participação numerosa de devotos, aparece nos relatos escritos pelo visitante chinês Hwang Tsang (602-64 e.c.), o qual visitou a Índia nos anos 629-45 e.c., durante o reinado do rei Harshavardhana. No entanto, não é mencionado o nome Kumbha Mela. De modo que, Kama Maclean, no livro Pilgrimage and Power: The Kumbh Mela in Allahabad, 1760-1954, afirma que os festivais anteriores a 1760 eram importantes peregrinações, mas ainda não eram um Kumbha Mela, no sentido atual. Segundo a autora, o primeiro Kumbha Mela em Allahabad aconteceu em 1870 (Maclean, 2008: 99). O Kumbha Mela de 1894, em Allahabad, foi mencionado por Paramahansa Yogananda, em seu livro Autobiography of a Yogi (capítulo 36). Já o Imperial Gazetteer of India (vol. 13, p. 52) menciona e fornece os números de participantes dos Kumbha Melas, em Haridwar, de 1796 (2,5 milhões) e de 1808 (2 milhões).
O banho ritual no rio Ganges, o momento culminante do festival
O Purna Kumbha Mela de 2001 teve uma ampla cobertura da imprensa (TV´s, rádios, internet, jornais e revistas), daí que muitos líderes políticos da Índia se interessaram em participar, a fim de se mostrarem (Scott, 2001: 08), inclusive, a então presidente do Congresso, Sonia Gandhi, realizou um “mergulho simbólico” no rio Ganges (Maha Kumbh Mela concludes, The Hindu, online edition, February 22, 2001).

Tragédias

            O Imperial Gazetteer of India registrou que no Kumbha Mela de 1819, em Haridwar, 430 pessoas, incluindo soldados e guardas, perderam a vida em um acidente (vol. 13, p. 52). Também que, uma epidemia de colega ocorreu durante o Kumbha Mela de 1892, nesta mesma cidade, o que levou a formação da Haridwar Improvement Society (vol. 13, p. 52-3).
            No Kumbha Mela de 1954, em Allahabad, ocorreu o acidente mais trágico dos festivais, que provocou um estouro de pânico, no dia principal do banho (Mauni Amavasya). Os números da tragédia variam conforme as fontes. O The Guardian informou que mais de 800 pessoas morreram e 100 ficaram feridas (The Guardian, online edition, August 28, 2003), a revista Time anunciou que não menos de 350 pessoas foram pisoteadas e afogadas até a morte, 200 foram consideradas desaparecidas e mais de 2000 ficaram feridas (Religion: The Urn Festival, Time Magazine, February 08, 1960). Já o livro Law and Order in India, mais de 500 pessoas foram mortas (Saksena, 1987: 81 e 164).
            Outra tragédia aconteceu no Kumbha Mela de 2003, na cidade de Nashik, nas margens do rio Godavari, quando o lançamento de uma moeda, por um asceta, desencadeou um estouro de pânico que resultou na morte de 39 pessoas e feriu 150. (The Guardian, online edition, August 28, 2003).

Sacralidade e poluição

            O momento culminante do Purna Kumbha Mela é o banho (snana) no rio Ganges (chamado também de rio Gangá pelos hindus, em virtude da deusa Gangá), bem como o ato ritual de beber a sua água, no entanto, sabemos que este rio sagrado e seus afluentes, com o tempo, se transformaram em rios muito poluídos. Enquanto que, para a maioria das pessoas sensatas poluição é incompatível com sacralidade, milhares de hindus ainda veneram estas águas imundas, na esperança de apressar a conquista da Liberação (Moksha). Agora, é interessante refletir sobre a insensatez de continuar atribuindo sacralidade a um rio tão poluído, tal como insistem os hindus devotados, depois de tomar conhecimento das informações do estudo abaixo, sobretudo pelo fato de que esta imundice é frequentemente noticiada pela imprensa e alertada pelos órgãos de defesa do meio ambiente na Índia.

A poluição do rio Ganges


Crianças no meio de uma imundice no rio Ganges
A sacralidade do rio Ganges contrasta assustadoramente com a sujeira da sua água. Para os hindus, banhar-se e beber a água do rio Ganges (Gangá) significa purificar o corpo dos pecados passados e curar as doenças do corpo e da alma. Inclusive muitos de seus veios são desviados para casas como fonte de água “potável” e para a irrigação na agricultura. Porém, muito dessa água não corrobora com seus poderes sobrenaturais de cura e de purificação. Ao contrário, o rio Ganges, como um todo, é considerado uma fonte impressiva de xenobióticos potencialmente letais, além de compostos cancerígenos e teratogênicos. Mas, esse problema não ocorre somente na Índia, tal problema se origina muito além das fronteiras indianas, acumulando-se até chegarmos ao calamitoso delta do Ganges onde deságua no Golfo de Bengala.

Como os países vizinhos contribuem para o aumento da poluição

Apesar de grande parte das nascentes localizar ao longo do Himalaia, um dos afluentes do rio Ganges se localiza em Bangladesh. Este país está localizado ao leste da Índia, sendo considerado um dos países mais pobres do mundo, o que acarreta em seu despejo em afluentes do Ganges e na sua presença nos cereais irrigados por esses afluentes (e em concentrações excepcionalmente altas, principalmente no arroz polido (Alam et al., 2002).
Devoto observa a passagem de um cadáver boiando no rio Ganges
Sabe-se que entre 40 a 60% do arsênico ingerido pela água é retido no organismo (Farmer e Johnson, 1990), levando-se de 8 a 14 anos de sua ingestão contínua para se alcançar um real impacto na saúde (Rehana et al., 1995). Estudos mostram que o arsênico pode inibir a síntese de DNA, levando a aberrações cromossômicas (Nataranja et al., 1996). Na pele, inicialmente há um efeito eritematoso, levando à melanose, hipercertose e descamação, podendo chegar, ao longo do tempo, ao desenvolvimento de carcinomas (Masholz, 1983). Um dos seus possíveis mecanismos carcinogênicos é a ativação de vírus oncogênicos, tais como o HPV (papiloma virus) (Stohrer, 1991). Além disso, a exposição crônica ao arsênico pode levar à anemia por destruição das hemácias (Kyle e Pearse, 1965), podendo também interferir no metabolismo do folato e do DNA, sendo potencialmente teratogênico (Westhoff et al., 1975).

Despejo de pesticidas e metais pesados

Existem inúmeras indústrias que despejam esgoto industrial diretamente no rio Ganges, contribuindo com até 25% do total de esgotos despejados (AIC, 1994). Saxena et al (1966) já havia concluído, ainda na década de 1960, que 5 curtumes, 10 indústrias têxteis e muitas outras indústrias ao longo do Ganges despejam 37,15 milhões de galões por dia de contaminantes, como metais pesados e lixo industrial. Em especial, curtumes localizados em Kampur despejam inúmeros compostos químicos, principalmente o cromo, excedendo em até 70% os níveis máximos recomendados para os seres humanos (nível que se mantém desde 1995) (AFP, 2010). Gupta et al. (2009) mostraram que duas espécies de peixes comuns no rio Ganges estão contaminadas por metais pesados, tais como zinco, chumbo, cádmio, cobre e cromo, excedendo números até 100 vezes o permitido. Em amostras de água em Saligarh e Sahampur, os níveis de cádmio, ferro, cobre e cromo estavam tão altos e fora dos padrões máximos de segurança, que a sua administração a bactérias causou mutações e aberrações cromossômicas (Tabrez e Ahmad, 2011; 2009).
Despejo de esgoto não tratado no rio Ganges
O uso de pesticidas é comumente usado em todo o vale do Ganges, especialmente na agricultura do arroz. É, sem dúvidas, um dos poluentes mais difíceis de se controlar, visto ser despejado em vários afluentes do Ganges, incluindo grande parte provindo de Bangladesh (Datta et al., 2009). O problema dos pesticidas (principalmente dos organoclorados, como o DDT e o aldrin) é a sua alta resistência à degradação ambiental (Hung e Thieman, 2002). Esses compostos podem ser bioacumulados ao longo do tempo, podendo levar à ações tóxicas sobre o sistema reprodutor (teratogenia) e nervoso (Danzo, 1998; Hellawell, 1988), distúrbios do sistema endócrino (Hileman, 1994), cânceres de mama, fígado, testículos e esterilidade (Davies e Bradlow, 1995; Coco et al., 1997) e atividade carcinogênica (UNEP, 2003).
Estudos mostram que o lençol freático de Bangladesh está contaminado com arsênico em doses 60 a 1000 vezes o permitido, devido ao uso em pesticidas e pelas características geológicas da região (Datta et al., 2009; Alam et al., 2002). No rio Gomti, afluente do Ganges, estudos mostraram níveis altíssimos de contaminação por pesticidas de vários tipos, tais como DDT, heptacloros, lindane e eldrin provindos do uso principalmente na agricultura (Malik et al., 2009). Rehana et al. (1995) coletaram 36 amostras de água ao longo do estreito superior do rio Ganges (em Kachla, Fatehgarh e Kanauj), detectando níveis de pesticidas, tais como DDT e organosfosforados, até 5000 vezes mais alto que o permitido (Agencia de Proteção Ambiental dos EUA, 1980). E esse tipo de contaminação aparenta ser endêmica, pois há níveis também altíssimos de pesticidas nos rios de cidades como Naroda (Rehana et al., 1996), Okhla (Asleem e Malik, 2005), Mathura (Asleem e Malik, 2003), Lucknow (Tripathi et al., 2009), Farrukhabad (Agnihotri et al., 1994), Ramnagar e Rjaghat (Varanasi) (Nayak et al., 1995). Talvez um dado ainda mais alarmante é que o próprio lençol freático em volta do Ganges também está contaminado por pesticidas (Sankararamakrishnan et al., 2005).
Devotos bebendo a água do rio Ganges
Com níveis de pesticidas tão altos nas águas dos rios, não é surpresa encontrar esses contaminantes em animais aquáticos pelo rio Ganges. Vários estudos mostraram que há também alto nível de contaminação de peixes e outros animais aquáticos (que são consumidos e vendidos pela população local, inclusive aos turistas) por esses mesmos pesticidas tanto no Ganges como em seus afluentes (Das et al., 2002; Jabber et al., 2001; Guzella et al., 2005). O grau de contaminação da água do rio Ganges é tão alto que uma pesquisa de 2002 revelou que até os golfinhos de água doce localizados em Patna estavam contaminados com altos níveis de DDT, aldrin e endosulfan (Kumar et al., 2002)
Obviamente que a contaminação da água e dos animais aquáticos pode levar à contaminação humana. Kumar e colaboradores (2001) mostraram que os indianos em torno do Ganges também estão contaminados por pesticidas em níveis acumulados muito acima do seguro. Em 2001, Shukla e colaboradores analisaram o conteúdo de carcinomas de vesículas biliares de 30 pacientes das regiões de Bihar e Uttar Pradesh, encontrando altos níveis dos pesticidas BHC, DDT, aldrin e endosulfano. Pessoas que vivem ao longo das margens do Ganges nas cidades de Uttar Pradesh, Bihar e Bengala têm maior propensão de desenvolver câncer que o resto do país, tendo-se a incidência de câncer de bexiga como o segundo mais alto do mundo e a incidência de câncer prostático como o maior de toda a Índia (Gosh, 2012). Curiosamente, as maiores incidências de cânceres de língua, boca, nasofaringe, estômago, vesícula biliar e útero na Índia ocorrem justamente em torno do delta do Ganges (Nadakumar et al., 2005).

Esgotos

Talvez o primeiro artigo mostrando a qualidade da água veio de Lakshminarayana em 1965, mostrando que a qualidade da água do rio Ganges em Varanasi (Benares) diminui nos períodos de chuva (monções, que ocorrem de Junho a Agosto), sem variar durante o inverno e o verão. Porém, o maior contribuinte para a contaminação do rio Ganges talvez seja o despejo de esgoto sem tratamento. Em Benares, ao menos 32 esgotos provindos da cidade deságuam no rio Ganges, entre eles plástico, animais e corpos humanos podem ser vistos flutuando no rio, e em Kampur são as unidades industriais, especialmente os curtumes, que descarregam produtos químicos e metais pesados na água (Ramachandran, 2011).
Cães comendo um cadáver na margem do rio Ganges
Um estudo de 1976 mostrou que o despejo de esgoto diretamente no Ganges, na cidade de Benares, é o responsável pela presença de organismos patogênicos na água (Agarwal et al., 1976). Dados estatais afirmam que todos os dias são despejados 2,9 milhões de litros de esgoto não tratado somente no Ganges, sendo que o sistema de tratamento comporta somente 1,1 milhão de litros/dia. Em Benares, o tratamento de esgoto depende de estações de bombeamento, porém a cidade ainda sofre com blecautes que podem durar até 12 horas. Em tempos de monções, essas estações são desligadas por um período de 3 a 5 meses por ano (Hamner et al., 2006). Além disso, o rio Ganges fornece até 40% da água consumida em 11 estados indianos (Hindustan Times, 2012). Os níveis de coliformes são tão altos que o uso de sua água até para a agricultura não é indicado (Daftuar, 2011).
Água do rio Ganges engarrafada
para comercialização
A Índia é um local endêmico para contaminação por cólera, principalmente em sua parte oriental (Sur et al., 2007; Hamner et al., 2006). Bilgrami e Kumar (1998) encontraram índices alarmantes de coliformes até 800% acima do permitido, além de níveis altíssimos de E. coli e C. perfringens no Ganges. De at al. (1993) não recomendam o uso da água do rio Ganges para beber ou tomar banho devido ao alto nível de contaminação do rio Ganges por bactérias potencialmente nocivas, tais como aeromonas, coléricas, salmonelas e shiguela. A contagem de coliformes da água em Benares alcança 60 mil organismos por 10 ml de água (Ramachandran, 2011) (os níveis seguros para locais de recreação é de 235 organismos por 10mL de água - algo em torno de 25 mil vezes acima do recomendado), rio abaixo a Benares, essa contagem chega a 1 milhão por 10 ml de água (Ramachandran, 2011).
A área em torno do rio Ganges é considerada local epidêmico de distúrbios gastrointestinais causados pelo V. cholera (Organização Mundial da Saúde; Levine et al., 2006). Annapurna e Sanyal (1977) mostraram que os indivíduos em torno do rio Ganges estão em constante exposição à bactéria Aeromonas hydrophila, causadora de diarreia, que se acumula nas fontes de água não tratada (provindas principalmente do rio Ganges ou do lençol freático). Padey e colaboradores (2005) mostraram que um dos principais causadores de doenças entéricas em Benares é a contaminação da água do Ganges, além da estratificação socioeconômica. E aparentemente casos de epidemias de cólera associadas ao uso de água não tratada não são raras nessa região (Das et al., 2009; Mukherjee et al., 2011).

Bibliografia

GANGULI, Kisari Mohan (tr.). The Mahabharata. Digital reprint of 1883-96 editions, Book I, p. 58-60.
GRIFFITH, Ralph T. H. (tr.). The Ramayana of Valmiki. London: Trübner & Co., 1870-4, p. 56-8.
KEAY, John. India: a History. London: HarperCollins Publishers, 2000.
MACLEAN, Kama. Pilgrimage and Power: The Kumbh Mela in Allahabad, 1765-1954. Oxford: Oxford University Press, 2008.
MEHTA, Nitin. Come to Kumbh Mela to See the Miracle That is Modern India em The Independent, London, April 15, 2010, p. 42.
TAGARE, Ganesh V. (tr.). The Bhagavata Purana. Delhi: Motilal Banarsidass, 1987, vol. III, p. 1030-53.
RAMAN, B. V. A Manual of Hindu Astrology. Bangalore: IBH Prakashana, 1983.
SAKSENA, N. S. Law and Order in India, New Delhi: Abhinav Publications, 1987, p. 81 e 164.
SCOTT, Baldauf. Politic Flow at the Meeting of Three Rivers em The Christian Science Monitor, February 09, 2001, p. 08.
SHASTRI, J. L. (ed.). The Siva Purana. Delhi: Motilal Banarsidass, 1992, vol. III, p. 1159s.
WILSON, H. H. (tr.). The Vishnu Purana. London: John Murray, 1840, Book I, p. 75-7.

Para conhecer uma galeria de fotos do Kumbha Mela, visite:

Vídeos:

Para a poluição do rio Ganges, visite:

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

|ESTUDO| A Linhagem dos Dalai Lamas: um Breve Estudo Crítico-histórico


Octavio da Cunha Botelho
       
   


(Obs: este estudo está disponível em versão mais atualizada em:
http://observadorcriticodasreligioes.wordpress.com/2014/01/02/a-linhagem-dos-dalai-lamas-2/)



O Palácio Potala em Lhasa, construído pelo 5º Dalai Lama
no século XVII, foi o centro do governo e a residência
 do Dalai Lama até 1959, atualmente aberto ao turismo
 
Nunca na história do Tibete um Dalai Lama teve tanta popularidade internacional como o atual, Tenzin Gyatso, o décimo quarto, cujo carisma o leva a ser bajulado em todos os cantos por onde viaja. A ocupação chinesa do Tibete, o massacre de seu povo e o exílio do seu líder comoveram o mundo e o transformaram numa celebridade mundial.
Entretanto, por trás da sua habitual mensagem de paz e de não violência está uma história de violência, que poucos conhecem, a qual esclarece como os dalai lamas chegaram a terem tanto poder sobre o povo tibetano. O breve estudo abaixo procura resumir estes esclarecimentos.     
 
O isolamento do Tibete

            Sobre a impenetrabilidade do Tibete, Emil Schlagintweit, um dos primeiros a escrever, em forma de livro, sobre esta região tão desconhecida dos ocidentais na época, observou em 1863: “pois penetrar no Tibete sempre foi uma matéria de grande dificuldade, ambas, em virtude dos obstáculos apresentados pelas grandes elevações do território, como também pelos sentimentos ciumentos e hostis dos nativos para com os estrangeiros” (Schlagintweit, 1863: 145). L. Austine Waddell, quem teve a rara oportunidade de estar com os lamas tibetanos por várias vezes no século XIX e.c., bem como permanecendo por longos períodos de tempo, aprendeu a língua tibetana, tinha mais facilidades de penetrar nesta região quase impenetrável, em virtude de ter sido um militar britânico (mesmo assim, nalgumas vezes teve de entrar disfarçado), disse em 1895: “Tibete, a terra mística do Grande Lama (Dalai Lama) ... é ainda o mais impenetrável país no mundo. Por trás de suas barreiras de gelo, erguidas pela própria natureza, e quase intransponíveis, seus sacerdotes guardam seus desfiladeiros cuidadosamente contra estrangeiros. Poucos europeus entraram no Tibete, e nenhum, desde meio século atrás, alcançou a cidade sagrada (Lhasa). Dos viajantes dos últimos tempos, que têm se atrevido a entrar nesta terra obscura, após escalarem suas fronteiras e penetrarem em seus desfiladeiros, enfiando-se nos desertos de neve, mesmo os mais intrépidos fracassaram em ir além dos arredores da sua província central” (Waddell, 1972: 01-2; 1ª edição: 1895).
Tashilhumpo, fundado pelo 1º Dalai Lama no século XV,
um dos quatro mais importantes mosteiros da seita Gelugpa
De modo que, o Tibete foi uma região tão fechada para o Ocidente, que os visitantes europeus, que a visitaram até o final do século XIX, podem ser contados nos dedos. Veja em seguida os relatos dos escritores que escreveram, na segunda metade do século XIX e no início do século XX, sobre os pouquíssimos visitantes europeus que alcançaram Lhasa (capital do Tibete). Curiosamente, os pioneiros foram missionários cristãos, porém nenhuma missão alcançou êxito, pois os religiosos eram logo expulsos.
O primeiro europeu a alcançar Lhasa, capital do Tibete, foi o frade Odorico de Pordenne, por volta de 1328 (Landon, 1905: 05-6) ou 1330 (Waddell, 1972: 02). Em 1661, os jesuítas Albert Dorville e Johann Gruher visitaram Lhasa em seus caminhos da China para a Índia. Depois, em 1706, os padres capuchinhos Josepho de Asculi e Francisco Maria de Toun entraram em Lhasa desde Bengala. Em 1716, o jesuíta Ippolito Desideri a alcançou vindo da Caxemira, permanecendo lá por cinco anos (1716-21). Ele foi o primeiro ocidental a aprender a língua tibetana. Em 1741, uma missão capuchinha conduzida por Horacio de La Penna, com cinco companheiros, chegou até Lhasa, no entanto seus esforços em propagar a fé cristã teve pouco sucesso, embora tenha sido recebida amavelmente pelas autoridades tibetanas. Entre os anos de 1774 e 1812 vieram os primeiros exploradores, George Bogle, um jovem escritor da East India Company, tenente Samuel Turner e Thomas Manning, um excêntrico matemático e pesquisador oriental, todos eles alcançaram, com relativo sucesso, o interior deste país de mistério. Os subsequentes foram os missionários Evariste Huc e Joseph Gabet, os quais alcançaram Lhasa em 1845, mas foram expulsos sete semanas depois da chegada (Schlagintweit, 1863: 145-6; Waddell, 1972: 02 e para aprofundamento, ver: Landon, 1905: 05-17). Bem, estes são os relatos dos que conseguiram, por outro lado não sabemos quantos foram os que tentaram, mas morreram ou desapareceram no caminho (Landon, 1905: 16).
A dificuldade para entrar no Tibete continuou pelos anos seguintes. Nos anos 1850, todos os estrangeiros foram expulsos e as fronteiras fechadas a todos de fora. Durante os anos 1923-49, o Tibete desfrutou de uma independência de facto, quando a China estava ocupada com guerras internas, com o movimento comunista e com a Segunda Guerra Mundial, mesmo assim o Tibete continuou a manter limitados contatos com o resto do mundo e Lhasa foi fechada aos estrangeiros. Porém, apesar desta situação, alguns exploradores conseguiram penetrar naquelas misteriosas terras naquele período. Desde então, foram possíveis descrições mais acertadas sobre a cultura e a religião dos tibetanos, com os trabalhos esclarecedores de W. W. Rockhill (1854-1914), Laurence Austine Waddell (1854-1938 e Sir Charles Bell (1870-1945). Atualmente, a situação é muito diferente, a região está aberta ao turismo, desde algumas décadas, o palácio Potala em Lhasa, antiga residência do Dalai Lama, transformou-se em ponto turístico, até os antigos aposentos íntimos do líder lamaísta podem ser visitados. No entanto, a prática do Budismo é atentamente controlada pelas autoridades chinesas.

O resultado da introversão tibetana

Drepung, outro dos quatro mais importantes mosteiros
da seita Gelugpa, a corrente dominante no Tibete a partir
do século XVII
            O isolamento do Tibete o manteve como o grande baluarte da cultura supersticiosa no mundo, onde se podia encontrar o maior cultivo das práticas mágicas. A cultura e a vida tibetanas testemunhadas pelos que as conheceram no século XIX, E. Schlagintweit, W. W. Rockhill, L. A. Waddell e Charles Bell lembram a retrógada mentalidade supersticiosa da Antiguidade e da Idade Média, com seu devotado envolvimento com as práticas da feitiçaria, do exorcismo, da bruxaria, da demonolatria, da adivinhação, da necromancia, etc. (Waddell, 1972: 403-19, 450-500 e passim), enfim, em outras palavras, o Tibete por muito tempo foi o “covil dos magos”.
            Enquanto, no século XIX, a Europa e outros países do mundo experimentavam as transformações da Revolução Industrial, o Tibete se introvertia ainda mais, fechando suas fronteiras aos estrangeiros, mergulhando mais fundo na sua obsoleta cultura supersticiosa.
            Parece que grande engano dos tibetanos, talvez estejam colhendo o que semearam, foi sempre pensar que a característica étnica era o suficiente para caracterizar o conceito de Estado. Em virtude do seu isolamento, eles não acompanharam as transformações no conceito de Estado que aconteciam na Europa, com as novas ideias de Montesquieu, de Rousseau e da Revolução Francesa, eles pensavam que apenas a propriedade étnica era suficiente para caracterizar a formação de um Estado. O resultado foi que nunca conseguiram o reconhecimento internacional como um estado independente. Enfim, os tibetanos não conheceram o conceito moderno de Estado:
1-    Território: o Tibete nunca teve um território com fronteiras permanentes e claramente definidas, pois ora estava fragmentado por feudos rivais ou invadido por estrangeiros (mongóis, chineses e manchus).
2-    Povo: a população sempre foi profundamente religiosa, na qual em cada província predominava uma ou outra seita do Lamaísmo, conforme a época e a dominação estrangeira. As seitas estavam sempre brigando entre si. Algumas seitas, ou mesmo mosteiros, tinham até seus exércitos particulares (Richardson, 1962: 39).
3-    Governo: desde o século XVII, o Dalai Lama acumulou os poderes religiosos e políticos do Tibete, porém ele é apenas o líder na hierarquia de uma das seitas do Budismo Tibetano, a seita dominante, Gelugpa, e não uma unanimidade. As outras seitas também possuem suas hierarquias com seus líderes (Minmapa, Kargyupa, Sakyapa, Kadampa, Karmapa, etc.). Portanto, para o conceito moderno de Estado, o Tibete é uma região com um povo profundamente religioso governado por um líder de uma seita budista dominante. Enfim, o Tibete é mais uma “grande igreja” com poderes políticos e administrativos, do que um Estado. 

Introdução e desenvolvimento do Budismo no Tibete

            Dos tantos países por onde o Budismo se espalhou, o Tibete foi um dos últimos a recebê-lo e, mesmo assim, sua penetração foi lenta, até alcançar uma implantação definitiva. Em virtude da chagada tardia, a modalidade de Budismo recebida foi uma já heterogeneamente desenvolvida na Índia, o Budismo Vajrayana (o Veículo do Diamante).
Padmasambhava (sec. VIII e.c.), a seita Ninmapa
o considera o verdadeiro introdutor do Budismo no Tibete
            Apesar de ser habitualmente conhecido como um dos países mais fechados do mundo, o Tibete, assim como outros países, também experimentou, no passado, sua época dourada, ou seja, durante o seu período de abertura e de expansão territorial, o Império Tibetano da dinastia Yar-Lung dos séculos VII e VII e.c., quando expandiu suas fronteiras até algumas regiões da China, do norte de Índia, do leste da Ásia Central, bem como incorporou o Nepal e o Butão. Este foi o império do rei Song-Tsen Gampo (604-650 e.c.), o maior personagem da história tibetana. No entanto, este foi o único momento de glória imperial do Tibete, pois, em seguida sucedeu-se uma fragmentação do seu território e um longo período de subordinação e de domínio por forças estrangeiras (mongóis, chineses e manchus revezaram o domínio por séculos.), intercalado por curtos períodos de independência, de unificações parciais e de pequenas expansões, até a última ocupação estrangeira, a dos chineses em 1949.
            Com o aumento do seu poder militar, Song Tsen Gampo atormentou as fronteiras da China, de maneira que o então imperador chinês, Tai Tsung, da dinastia T’sang, ficou contente em chegar a um acordo com o jovem imperador tibetano e, para consolidar a aliança, deu-lhe a mão de sua filha, a princesa Wencheng, em casamento no ano de 641 e.c. Dois anos antes, ele já tinha se casado com a filha do rei do Nepal, a princesa Bhrikuti. Ambas as princesa eram budistas devotas. O jovem imperador tibetano se interessou pelo Budismo e, assim, enviou seu vassalo Thonmi Sambhoda para estudar Sânscrito na Índia. Após seu retorno, um alfabeto tibetano foi criado e a gramática foi codificada. Alguns textos budistas em Sânscrito foram traduzidos para o tibetano neste período. O sistema de escrita auxiliou a criar um sentido de comunidade cultural. Antes desta época (século VII e.c.), o Tibete era uma região selvagem, a chegada do Budismo, então, civilizou o Tibete.
            Entretanto, este primeiro impulso não foi suficiente para fazer o Budismo decolar, a nova religião importada ainda sofria muita oposição da nativa religião xamânica Bon. No século seguinte, novo impulso foi dado pelo imperador Thri Song de Tsen (742-98 e.c.) quando este convidou monges budistas da Índia para ensinarem no seu país. Então, foi neste período que chegou ao Tibete, em 747 e.c., o monge tântrico Padmasambhava, o qual seria posteriormente envolvido em muitos relatos lendários (Waddell, 1972: 24-8; 380-2 e Evans-Wentz, 2000b: 101-92), um professor da escola budista de Nalanda, norte da Índia. A seita Minmapa o considera como o verdadeiro introdutor do Budismo no Tibete. Também, importante foi a vinda do erudito monge budista Santarakshita, nesta mesma época. Este último ordenou os primeiros monges tibetanos após a construção do primeiro mosteiro budista em Samye, no ano de 775 e.c. Neste período foram feitas ainda mais traduções de textos budistas para o tibetano.
Tsong Khapa, o fundador da seita
Gelugpa no século XIV e.c.
            Entretanto, no século seguinte, quase tudo foi por água abaixo com a perseguição aos budistas empreendida pelo imperador apóstata Lang-Darma, quem governou a partir de 836 e.c., bem como com o seu assassinato em 842 e.c. Uma guerra civil eclodiu e o império desintegrou-se, perdendo, com isso, seu poder militar e político. Lang-Darma foi o último imperador. Em seguida, segui-se um período de hibernação do Budismo Tibetano até o final do século X e início do século XI.
Com a queda do Império, perdeu-se também uma liderança central no Budismo Tibetano e, consequentemente, o sistema monástico enfraqueceu-se, abrindo as portas para o aumento das práticas tântricas por praticantes que não eram monges, geralmente adeptos casados. Sucedeu-se, então, um choque de opiniões entre os defensores da vida monástica, com base nos sutras do Mahayana, os quais acusavam os tântricos de deformarem o ensinamento do Dharma; e os tântricos, por sua vez, insistiam que não era necessária a vida monástica, considerando esta como inferior às práticas tântricas.
Para solucionar este conflito, o então rei do Tibete Ocidental, Ye-Shay-o, defensor do reestabelecimento do monasticismo, convidou o monge indiano Atisha (982-1054 e.c.) para residir no Tibete, o qual chegou em 1038 e.c. Ele foi o primeiro grande reformador do Budismo Tibetano. Atisha entusiasmou os tibetanos com seus ensinamentos e forneceu a base para a solução do conflito entre as práticas monásticas e tântricas, ele incluiu ambas em sua síntese. Seu discípulo, Drom-Don-ba (1005-64 e.c.), enfatizou o monasticismo e a prática do aspecto exotérico do Budismo. Esta ênfase o levou a fundar, em 1050 e.c., a seita Kadampa, a precursora da grande seita Gelugpa, esta última foi fundada pelo grande reformador tibetano Tsong Khapa (1357-1417 e.c.), em 1407 e.c., a corrente dominante do Budismo Tibetano até os dias de hoje.
A partir, então, do século XI, inicia-se uma efervescência no Budismo Tibetano, com o surgimento de muitos reformadores e a multiplicação de novas seitas, o que torna muito extenso expor todo o assunto aqui. Para conhecer um esquema geral das sitas do Budismo Tibetano, consultar a obra Tibetan Buddhism de L. A. Waddell, p. 55, onde as correntes são divididas em: reformadas (Gelugpa e Kadampa), semi reformadas (Kargyupa, Karmapa, Sakyapa e outras) e as não reformadas (sobretudo Minmapa). Para aprofundamento na história do Budismo no Tibete, ver: Waddell, 1972: 18-53; Conze: 1996: 104-6 e 127-38; Obermiller, 1996: 181s; Dreyfus, 2003: 17-31 e Wayman: 2006: 250-6.             

A heterogeneidade do Budismo Tibetano

            Quatro camadas se integram e se sobrepõem no Lamaísmo:
1ª camada: relativa à corrente do Hinayana (Pequeno Veículo, recebe este nome porque sua embarcação (yana) abriga poucos pretendentes, os quais precisam ser monges e passar por austeras disciplinas para alcançarem o Nirvana) os ensinamentos básicos de Buda, o monasticismo. Esta é a visão budista que gira principalmente em torno das três categorias: Samsara, Karma e Nirvana. Na tradição tibetana, estas ideias e práticas budistas raramente são autossuficientes, ao invés, elas são combinadas com a segunda camada.
2ª camada: as ideias e as práticas nos sutras (sermões) do Budismo Mahayana (Grande Veículo, recebe este nome porque sua embarcação (yana) abriga muitos pretendestes, não precisa ser monge para alcançar o Nirvana e está aberto a todos) que propõe o ideal do Bodhisattwa, a renúncia ao Nirvana para auxiliar os outros a alcançarem o budado. Isto exige a prática da conduta à Libertação, que consiste na prática de: moralidade, concentração, insight, compaixão e o caminho conhecido como “Veículo da Perfeição” (Paramitayana). Esta é a parte exotérica do Budismo Tibetano.
3ª camada: consiste nos textos esotéricos, as ideias e as práticas encontradas no Tantras, os quais ensinam o cominho secreto, o Mantra Secreto, ou Vajrayana (Veiculo do Diamante, recebe este nome porque sua embarcação (yana) abriga os ensinamentos do Hinayana, do Mahayana e dos Tantras). O objetivo da prática tântrica é ativar o potencial interno do discípulo para apressar a conquista do Nirvana.
4ª camada: o Budismo Tibetano não está limitado a estas três correntes canônicas. Existe uma grande quantidade de práticas populares tratando de: possessão, exorcismo, adivinhação, cura, adoração de demônios, invocação de elementos da natureza e de espíritos, busca de riqueza e de poder, etc. Este é o substrato xamânico da nativa religião Bon, o qual nunca se desgarrou da tradição budista do Tibete (Dreyfus, 2003: 18-20).

A linhagem dos Dalai Lamas

            Poderá ser novidade para muitos, mas Dalai Lama não é o nome de uma pessoa, senão o nome de um cargo de líder religioso, assim como é o nome Papa no Catolicismo, o nome Patriarca na Igreja Ortodoxa e o nome Califa no Islamismo. O nome do atual Dalai Lama é Tenzin Gyatso (1935- , nome religioso), ele é o décimo quarto Dalai Lama, seu nome de família é. O nome Gyatso (oceano em tibetano) acompanha os nomes de todos os Dalais, exceto o primeiro, Gendun Drup (1391-1474 e.c.), tal como será visto em seguida.
A história dos Dalai Lamas começa em 1578 e.c., quando Sonam Gyatso (então abade do mosteiro Gelugpa de Drepung, quem depois se tornaria o terceiro Dalai Lama) visitou a Mongólia, por ser um brilhante erudito e um hábil missionário, converteu ao Budismo o líder mongol, Altan Khan, juntamente com um grande número de seus seguidores. Este último, por sua vez, concedeu a Sonam Gyatso o título de “Dalai” (oceano em mongol), uma tradução da palavra “Gyatso” (oceano em tibetano, no sentido de “oceano de conhecimento”). Depois, o título de Dalai Lama foi retrospectivamente concedido aos abades dos mosteiros de Drepung que antecederam Sonam Gyatso, estes foram, Gedun Truppa (1391-1474), sobrinho de Tsong Khapa, e Gedun Gyatso (1475-1542), de modo que, os dois primeiros Dalai Lamas receberam o título postumamente. Sonam Gyatso afirmou que ele era a reencarnação dos dois abades anteriores de Drepung (Gedun Truppa e Gedun Gyatso), aproveitando-se do então emergente sistema de lamas reencarnados (tulku, o qual acontece com a transferência da consciência de um mestre falecido para um recém-nascido), já utilizado por outras seitas lamaístas (Sakyapa, Karmapa, etc.) para assegurar a continuidade da linhagem e evitar que os bens dos mosteiros caíssem nas mãos de aproveitadores, a fim de, então, introduzir na seita Gelugpa, a linhagem de mestres reencarnados (tulku). Daí, a partir de então, todo Dalai Lama é a reencarnação de todos os Dalai Lamas anteriores, os quais, por sua vez, são conjuntamente a reencarnação de Avalokiteshwara, o Bodhisatwa da compaixão. O importante mosteiro Gelugpa de Tashilhumpo foi fundado por Gedun Truppa (o primeiro Dalai Lama) em 1445 e.c. Após o terceiro Dalai Lama (Sonam Gyatso), o mosteiro de Tashilhumpo passou a ter a sua própria linhagem de líderes, conhecidos como Panchen Lamas, paralelamente à linhagem dos Dalai Lamas. A linhagem dos Panchen Lamas (ou Tashi Lamas) são a segunda em autoridade na hierarquia da seita Gelugpa, após a linhagem dos Dalai Lamas, e também utilizam o sistema de mestres reencarnados (ver a lista da linhagem em: Waddell, 1972: 236 e para os relatos dos primeiros Dalai Lamas, ver: Richardson, 1962: 40-1 e Wayman, 2006: 253-4).
O 5º Dalai Lama, Logsang Gyatso (1617--82),
aclamado pelos tibetanos como "O Grande Quinto"
Após a morte do terceiro Dalai Lama, Sonam Gyatso, o seu sucessor, Yonten Gyatso (1589-1617 e.c.) foi suspeitamente encontrado, não por acaso, num dos bisnetos de Altan Khan, uma eficiente estratégia política para consolidar a aliança entre a seita Gelugpa e os mongóis, o que nos leva a suspeitar da honestidade do sistema de reencarnação de mestres (transferência de consciência de um mestre falecido para uma criança recém-nascida), já dotado pela seita Gelugpa (Wayman 2006; 254). Este fato consolidou a supremacia da seita Gelugpa, primado que, desde o século XVI, vigora até os dias de hoje. Porém, esta aproximação entre a seita Gelugpa e os mongóis provocou a revolta das seitas rivais, sobretudo da seita Karmapa, destronada pelos Gelugpas, então, apoiada pelo rei de Tsang (Tibete Central), desfechou um ataque contra os mosteiros Gelugpas de Drepung e Sera e o jovem Dalai Lama foi forçado a fugir. Os Gelugpas buscaram ajuda dos seus aliados mongóis, mas estes últimos não interviram imediatamente, e o Dalai Lama acabou morrendo com a idade de 25 anos de idade (Wayman, 2006: 254).
O quinto Dalai Lama, Ngawang Lobsang Gyatso (1617-1682 e.c.), foi o mais admirado de todos, por isso os tibetanos atribuíram-lhe o título de “O Grande Quinto”. Ele aliou-se com o líder mongol Gushri Khan (o grande patrono da ordem Gelugpa) que derrotou o rei Tsang, depois de uma guerra sangrenta de demorada, assim destituindo o poder militar dos Karmapas e, em seguida devolveu a liderança ao Dalai Lama, o qual expandiu o seu poder por todo o Tibete. O 5º Dalai Lama foi colocado no trono, como o líder religioso e temporal do Tibete, em 1642 e.c., e Gushri Khan ofereceu-lhe suas conquistas do Tibete Central e Oriental como presente.  
Diante desta nova situação, o antigo palácio de Ganden, no mosteiro de Drepung, não servia mais aos propósitos do novo estado, uma vez que o palácio não podia ser considerado a capital política do Tibete. Então, iniciou-se a construção do palácio de Potala em 1645 e.c., cuja conclusão em 1649 e.c., transferiu a sede do governo para Lhasa. 
Entretanto, mais uma vez, a escolha sucessória de um Dalai Lama está cercada de suspeita. Sabemos que, um dos sinais utilizados pelos lamas tibetanos para reconhecer que uma criança é a reencarnação de um lama falecido é pelo reconhecimento dos objetos pessoais utilizados por este último. O próprio “Grande Quinto” denunciou depois a fraude, sobre o seu teste de identificação de objetos, em um de seus escritos: “O oficial Tsawa Kachu do palácio Ganden (no mosteiro Drepung) mostrou-me estátuas e rosários (que pertenceram ao quarto Dalai Lama e outros lamas), mas eu fui incapaz de distingui-los. Quando ele deixou o quarto, eu o ouvi dizer aos outros do lado de fora que eu tinha passado no teste. Mais tarde, quando ele tornou-se meu tutor, ele sempre me censurava e dizia: você precisa se esforçar, visto que você foi incapaz de reconhecer os objetos” (Karmay, 2005: 12). Esta denúncia é perturbadora, porém o autor do artigo, Samten G. Karmay, não cita a fonte do registro de onde ele retirou a citação. Todos os outros livros consultados, quando tratam deste Dalai Lama, não mencionam esta denúncia.
O Sexto Dalai Lama, Tsangyang Gyatso (1683-1706), foi o mais exótico de todos. Em razão da sua vida libertina e de poeta (foi o único compositor de versos líricos do Tibete), foi deposto, preso e assassinado em 1706, com apenas 23 anos de idade (Waddell, 1972: 234 e Wayman, 2006: 262).
Os próximos dalai lamas, do sétimo ao décimo segundo, nenhum chegou até a maturidade. O sétimo Dalai Lama, Kelzang Gyatso (1708-1757) morreu aos 49 anos de idade, porém exerceu o cargo por pouco tempo, uma vez que foi exilado por muitos anos e só conseguiu assumir no final da sua vida; o oitavo, Jamphel Gyatso (1758-1804), morreu aos 46 anos. Pior ainda foram os quatro próximos, o nono, Lungtok Gyatso (1805-1815) morreu aos 10 anos de idade; o décimo, Tsultrin Gyatso (1816-1837) aos 21 anos; o décimo primeiro, Khendrup Gyatso (1838-1856) aos 18 anos e o décimo segundo, Trimley Gyatso (1857-1875) aos 22 anos de idade, todos sob fortes suspeitas de terem sido assassinados (Richardson, 1962: 59 e Waddell, 1972: 234-5).
O 13º Dalai Lama, Thubten Gyatso (1876-1933),
introduziu importantes inovações no Tibete
O décimo terceiro Dalai Lama, Thubten Gyatso (1876-1933) interrompeu esta sequência de mortes prematuras e viveu até os 57 anos de idade, foi capaz de exercer o cargo por 38 anos, porém intercalados com períodos de permanência no exílio, para fugir das invasões britânica (1904-1909) e chinesa (1910-1913). Ele foi o primeiro Dalai Lama a perceber a importância das relações estrangeiras. Após seu retorno do exílio em 1913, introduziu algumas inovações no Tibete: o primeiro selo postal, a célula de dinheiro em papel, a polícia, etc. Neste mesmo ano, declarou independência da China e padronizou a bandeira tibetana, a qual é utilizada até os dias de hoje pelos militantes do movimento de independência do Tibete. Seu principal empenho foi evitar a dominação estrangeira no Tibete, embora com pouco sucesso, uma vez que os chineses, os britânicos e os russos cobiçavam a região.
O próximo, o décimo quarto, é o atual Dalai Lama, Tenzin Gyatso (1935-). De todos os líderes tibetanos, é o único que não necessita de apresentação, pois foi o primeiro Dalai Lama a se transformar em celebridade mundial. Notícias sobre ele estão sempre nos noticiários de todos os países do mundo. Para onde vai, ele é recebido por um séquito de admiradores e de bajuladores. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1989. Ele residiu no Tibete até 1959, após o fracassado levante tibetano contra a ocupação chinesa, desde então ele vive em Dharamsala, Índia, onde formou um Governo Tibetano no Exílio.
Agora, o intrigante é que ele é um insistente pregador da paz e da não violência, à maneira gandhiana, no entanto, quando observamos, no breve estudo acima e, mais detalhadamente, através de um estudo da história do Tibete, a maneira violenta e sangrenta com a qual a sua seita lamaísta, a ordem Gelugpa, construiu e manteve a supremacia sobre as outras seitas rivais, nos tornamos perplexos. O primado da ordem Gelugpa sobre as outras rivais, no período do quinto Dalai Lama, foi obtido com muita violência e com muito sangue e graças à aliança com um sanguinário líder mongol, Gushri Khan.

Uma reflexão descontraída

            O surpreendente, e até certo ponto intrigante, é a atribuição do titulo de Gyatso (oceano, em tibetano, no sentido de oceano de conhecimento) e Dalai (oceano, em mongol) para quase todos os líderes da seita Gelugpa, exceto o primeiro Dalai Lama. O curioso é que ambas as regiões (Tibete e Mongólia) não são banhadas pelo oceano. Pelo que se percebe do temperamento fechado dos tibetanos e a aversão pelos estrangeiros, é certo que quase a totalidade da população tibetana, por todos os séculos, nunca viu o mar, pois os tibetanos não costumavam viajar para longe. As praias mais próximas do Tibete estão nas regiões de Bangladesh e da província de Bengala na Índia, a muitas dezenas de kilometros de distância. Na época da atribuição do título (século XVI), não existiam a fotografia, o cinema e o vídeo, para que a imagem do oceano pudesse ser conhecida, pelo menos, através de reprodução. Talvez o primeiro Dalai Lama a ver o oceano seja o atual, uma vez que vive no exílio e viaja muito. Então, seria curioso saber a razão que levou um povo, que vive tão distante do mar, a atribuir o título importante de Oceano (Gyatso) para o seu maior líder.
O 14º e atual Dalai Lama, Tenzin Gyatso (1935-),
 transformou-se numa celebridade mundial

            Então, um leitor espirituoso deste estudo, poderá estar imaginando como poderá ser este oceano no qual viveram os Dalai Lamas. Pelas lutas violentas e o derramamento de sangue, nas disputas por poder e pela supremacia, tal como descritas acima, ele será imaginativamente levado a pensar que se trata de um oceano habitado por tubarões predadores, no qual cada um, com a ajuda de seu cardume, procura manter a soberania em suas águas e conquistar o poder sobre as dos outros, a fim de alcançar domínio sobre todo o oceano.  Esta foi a briga entre as seitas tibetanas durante séculos.
            Quanto à localização deste oceano, este mesmo leitor imaginará que, com tanto derramamento de sangue em busca de poder, certamente esta região não será o Oceano Pacífico, então, a região oceânica mais provável deverá ser o Mar Vermelho. Os períodos de exílio de alguns Dalai Lamas e os seus sofrimentos devem ter acontecido no Cabo das Tormentas e as misteriosas mortes prematuras dos Dalai Lamas IX ao XII, bem como o desaparecimento misterioso do quinto Dalai Lama (sua morte foi ocultada por alguns anos pelo regente tibetano na época) devem ter acontecido na região do Triângulo das Bermudas.
            Enfim, aqueles que ouvem as pregações de paz e de não violência do atual Dalai Lama, Tenzin Gyatso, e não conhecem a história tibetana, sobretudos os admiradores e os bajuladores, não são capazes de imaginar que, por trás desta mensagem pacífica, se esconde uma história de sangrentas lutas de sua seita, a Gelugpa, a fim de alcançar a supremacia sobre as outras correntes, até se tornar a ordem dominante do Budismo Tibetano.

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