terça-feira, 31 de julho de 2012

|ESTUDO| O Jejum do Ramadã e seus Efeitos Colaterais


Octavio da Cunha Botelho
            





Iniciado a partir do dia 20 de Julho, o mês do Ramadã é o período mais sagrado para os muçulmanos, quando é praticado o jejum (sawm) durante o período diurno nos 29 ou 30 dias do mês, com isso as refeições são consumidas durante a noite. A sacralidade reside no fato de ser neste mês  que Maomé recebeu a primeira revelação do anjo Gabriel, numa noite denominada pelos muçulmanos de Noite do Destino (al-Qadr).
            O breve estudo abaixo pretende, num primeiro momento, informar resumidamente o que é o Ramadã, com sua celebração principal, o jejum; bem como sua origem, sua menção nos textos sagrados, suas interpretações controversas e suas transformações desde o objetivo original; para em seguida relatar alguns resultados de pesquisas que apontam os efeitos prejudiciais, tanto fisiológicos como psicológicos, deste jejum nos praticantes.

Os cinco pilares do Islamismo


A grande mesquita de Meca
            A identidade mulçumana é reconhecida pela prática dos cinco princípios estabelecidos pela tradição islâmica: a profissão de fé ou testemunho (shahadah), a oração (salat), a doação (zalat), o jejum (sawm) e a peregrinação (hajj). O Alcorão menciona estes cinco princípios do Islã em passagens dispersas, mas nunca a menção dos cinco coletivamente como um mandamento numa só passagem. Portanto, a fonte canônica para a homologação destes princípios se encontra nos Hadiths (ditos de Maomé), os textos islâmicos de maior autoridade após o Alcorão, sobretudo numa passagem do Hadith de Muslim, Sahih 1.06.20: “É narrado, na autoridade de Abdulah Ibn Omar, que o Mensageiro de Deus (Maomé), que a paz esteja com ele, disse: a superestrutura do Islã está erguida em cinco pilares: o testemunho que não há nenhum deus além de Deus, que Maomé é seu servo e mensageiro, e o estabelecimento da oração, do pagamento da taxa de doação, da peregrinação a Casa (de Deus em Meca) e o jejum do mês do Ramadã (Muslim, Sahih 1.06.20 – Peters, 1994: 152).
1)- A Profissão de Fé ou Testemunho (Shahadah): É o pré-requisito para o ingresso na religião islâmica, quando o novato faz a declaração formal de sua fé que Alá é o único deus: “Declaro que não há outro deus além de Alá, e que Maomé é o mensageiro de Deus”. O novato é admitido a partir do momento que faz esta declaração na presença do imã (líder islâmico) e de outras testemunhas.
2)- A Oração (Salat): Existem as orações obrigatórias e as complementares, bem como as individuais (no lar) e as coletivas (na mesquita). As imprescindíveis são as cinco orações diárias: do amanhecer, do meio dia, da tarde, do anoitecer e da noite. Também, muito importante é a oração coletiva das Sextas Feiras, ao meio dia, na mesquita. Com a expansão do Islamismo para outras regiões distantes, surgiu a dúvida se o horário a ser seguido deveria ser o horário local ou o horário de Meca, devido às diferenças no fuso horário, predominou a interpretação da prática no horário local. A exigência é de que as orações sejam realizadas com o orador voltado para Meca, mas existem exceções entre alguns grupos mulçumanos espalhados pelo mundo (Rippin, 1997: 130-1).
3)- A Doação (Zakat): É uma parte da riqueza do mulçumano que é doada para os necessitados, difere da caridade que é espontânea. Uma Zakat (doação) especial é a Fitra, que é oferecida pelo mulçumano no fim do mês sagrado do Ramadã.
4)- O Jejum (Sawm): O mais importante é o jejum do mês do Ramadã, quando é proibido comer, beber, fumar ou ter relação sexual, no período do dia, durante um mês. Nos casos de impossibilidades, existem opções alternativas para aqueles impossibilitados de praticá-lo. Outro jejum de menor importância, mas ainda praticado por algumas comunidades mulçumanas, é o jejum Ashura, o qual antecedeu ao jejum do Ramadã, para depois ser substituído por este último ainda nos tempos de Maomé (Robinson, 2003: 121-2).
5)- A Peregrinação (Hajj): O muçulmano deve realizar pelo menos uma peregrinação a Meca na vida. Chegando lá, o fiel deve efetuar sete voltas ao redor da Caaba (Pedra Negra), no interior da Grande Mesquita. Em seguida bebe água do poço de Zenzem, para então dirigir-se ao monte Arafat (Ali, 1944: 16-30, 119-87, 208-21, 222-31 e 332-51; Rippin, 1997: 127-41; Chittick, 1994: 8-20; Peters, 1994: 150-2 e passim e Robinson, 2003: 96-116).

Ramadã, o mês sagrado

Muçulmanos orando durante o Ramadã
            A razão para a sacralidade está no fato de ter sido durante este nono mês do calendário lunar dos muçulmanos, o Ramadã, que a primeira revelação do anjo Gabriel foi feita a Maomé, numa gruta no monte Hira, no entorno de Meca, em 610 e.c. “Foi no mês de Ramadã que o Alcorão foi revelado...” (Alcorão: sura 2, aya 185). Este evento é denominado de Noite do Destino (al-Qadr) e está registrado na sura (capítulo) 97 do Alcorão: “Sim, revelamos o Alcorão na Noite do Destino (al-Qadr)... A noite de Qadr (Destino) vale mais que mil meses...” (sura 97, ayas 1-03 - Challita, 2002: 348). Outro nome para esta noite é Noite Abençoada (Laylat al-Qadr), bem como outra interpretação é Noite do Poder (Ali, 1934: 1765; Arberry, 1955: 345 e Palmer, 1994, vol. 09: 337). A revelação corânica foi um processo gradativo que se estendeu por 23 anos, por isso os intérpretes dividem as revelações do Alcorão em suras (capítulos) que foram reveladas durante o período da permanência de Maomé em Meca, e as suras que foram reveladas no período de sua estadia em Medina. O mais comum é comemorar a Noite do Destino (al-Qadr) na 27ª noite do mês do Ramadã, mas existe divergência, para outros intérpretes, este evento é comemorado na 24ª noite (Peters, 1994: 169-70).  
Os muçulmanos seguem o calendário lunar, cuja diferença com o nosso calendário solar faz com que a cada ano o mês do Ramadã se antecipe aproximadamente onze dias. Assim, em 1998 o Ramadã começou em 20 de Dezembro, em 1999, em 09 de Dezembro, em 2000, no dia 28 de Novembro (Robinson, 2003: 119) e continuou se antecipando até que, no ano de 2012, iniciou recentemente no dia 20 de Julho. O mês do Ramadã começa quando a nova lua crescente faz sua primeira aparição no céu, daí então, o amanhecer do dia seguinte é o primeiro dia do mês do Ramadã. Porém, este critério é problema na época de noites nubladas, quando não é possível avistar a lua. Nestes últimos casos, o critério é o cálculo (Chittick, 1994: 17). O horário preciso de iniciar o jejum é problema também para os muçulmanos que vivem nas regiões polares. O momento exato na manhã para o início do jejum do Ramadã é determinado curiosamente assim no Alcorão: “... E comei e bebei até que comecei a distinguir, na aurora, a linha branda da linha preta. Depois, jejuai até a noite...” (sura 2, aya 187 – Challita, 2002: 16). O jejum acontece apenas durante o dia, sendo assim, termina no crepúsculo de cada dia. No período da noite é permitido comer e beber. Apesar da prescrição da moderação, levantamentos constataram um assustador aumento do consumo de alimentos no período noturno: “Em alguns países mulçumanos, contudo, não é agora incomum bem mais carnes e verduras serem consumidas no Ramadã, que em todos os outros meses juntos. Existe assim uma grande e séria distância entre o ideal e a realidade” (Robinson, 2003: 126). Em outras palavras, o que alguns jejuadores abstêm durante o dia é extravasado durante a noite, de modo que, a rigor, o jejum não tem efeito religioso, o que acontece na prática é apenas a inversão no turno das refeições.
Preparação da comida para a refeição noturna no Ramadã
Agora, o intrigante na primeira revelação corânica é o fato de Maomé ser analfabeto, mas, milagrosamente, conseguir ler o texto apresentado a ele durante uma visão, já que, segundo os registros preservados nos Hadiths (ditos e atos de Maomé) e nas biografias, Maomé era iletrado. Segundo o relato de uma de suas biografias, esta primeira revelação aconteceu quando ele estava dormindo numa caverna no monte Hira, quando lhe surgiu, numa visão, o anjo Gabriel com uma colcha de brocado, na qual havia algum escrito e disse: recite, no que Maomé perguntou: o que eu devo recitar? Ele não conseguia ler o que estava escrito, pois era analfabeto. Pela sua pergunta “o que devo recitar?”, percebe-se que o seu analfabetismo era tão completo que nem sequer foi capaz de identificar que o que estava sobre a colcha era um texto. O anjo insistiu por mais três vezes e Maomé deu as mesmas respostas indagando o que deveria recitar, até que ele finalmente leu o texto e depois acordou do sono conseguindo conservar na memória tudo que estava escrito no texto daquela colcha (Williams, 1961: 61 e Peters, 1993: 51). Este evento é para os crentes mulçumanos um exemplo do poder do que deus é capaz, já para os céticos, mais uma lenda inventada pela imaginação humana. A primeira revelação nesta Noite do Destino está registrada nos cinco primeiros versos (ayas) da sura 96, denominada Alaq (Coágulo), no Alcorão: “Leia (iqraa) em nome de teu Senhor, que criou, criou o homem de um coágulo. Leia (iqraa). E teu Senhor é o mais generoso, que ensinou (o uso da) pena...” (Ali, 1934: 1761 e Palmer, 1994, vol. 09: 336). Outros tradutores traduziram a palavra iqraa como ‘recita’ (Arberry, 1955: 344, Peters, 1994: 51 e Challita, 2002: 347). Esta diferença na tradução pode ser explicada pelo fato que na Antiguidade era comum a leitura em voz alta, uma vez que a maioria da população era analfabeta, então quem sabia ler, lia, quando solicitado, de maneira para os outros ouvirem. Logo, ler poderia ser sinônimo de recitar. Agora, a menção da criação do homem a partir de um coágulo, mencionada logo acima, é exegeticamente desafiadora, e para a mentalidade científica, até cômica.
Com o tempo, sobretudo mais recentemente, as celebrações do Ramadã se transformaram na mais importante comemoração e na grande manifestação da unidade do Islamismo, o mês quando os muçulmanos tornam-se conscientes de seu passado e afirmam seus laços com os seus ancestrais. Dentre as comemorações, a mais importante no mês do Ramadã é o jejum (sawm), o quarto pilar da fé mulçumana, na qual é proibido comer, beber, fumar e ter relação sexual durante o período do dia. Orações (salat) e doações (zakat) também são efetuadas em casa e nas mesquitas, bem como recitações do Alcorão são feitas à noite, costuma-se dividir o texto em trinta partes, sendo que cada uma é lida numa noite até que a leitura completa termine na trigésima, ou seja, na última noite do Ramadã. Estações de TV e de radio transmitem ao vivo estas recitações durante todo o mês. A prática do jejum já era conhecida por Maomé e seus companheiros, pelo que é possível extrair da sua biografia e da seguinte passagem do Alcorão: “Ó vós que credes, foi-vos prescrito o jejum, como foi aos que vos precederam...” (sura 2, aya 183 – Ali, 1934: 72; Palmer, 1994, vol. 06: 25 e Challita, 2002: 16). Maomé conviveu com judeus e com cristãos, os quais já praticavam o jejum. A primeira prática de jejum estabelecida por Maomé para os seus seguidores foi no Ashura, o Dia do Perdão dos Judeus, depois com o rompimento com os judeus, ele transferiu o jejum para o mês do Ramadã e o jejum do Ashura se tornou opcional (Robinson, 2003: 121).
Família muçulmana durante refeição 
O propósito do jejum do Ramadã é proporcionar ao jejuador a experiência de privação, de modo que ele ou ela sinta o sofrimento do necessitado. Daí o hábito de, no fim do jejum, doar alimento a um carente. Assim, para o praticante, o mês do Ramadã é o da solidariedade e do auxílio mútuo. Quando praticado seriamente, representa uma experiência válida e socialmente útil, pois poderá ser uma maneira de inibir o egoísmo e de diminuir a indiferença com os necessitados. No entanto, sua prática se tornou um problema para a complexa e dinâmica vida contemporânea, sobretudo nas metrópoles, onde o ritmo de vida é mais acelerado e muitos serviços públicos não podem ser paralisados. Pois, durante o Ramadã, em algumas cidades o comércio reduz o horário de funcionamento, ou até mesmo não abre durante o dia, muitos profissionais não trabalham e assim por diante. O problema é ainda maior para mulçumanos que residem em cidades de países onde o Islamismo não é a religião majoritária, visto que é difícil praticar o jejum, com as atividades complementares, orações, visita à mesquita, etc., num ambiente socialmente estranho e com uma rotina desfavorável. No caso de pessoas impossibilitadas de praticarem o jejum durante o Ramadã, são prescritas tarefas alternativas tais como caridade, assistência social, etc. Os desobrigados são: as crianças, os enfermos, os viajantes, as gestantes, as mulheres em período de amamentação ou de menstruação, bem como os profissionais de atendimentos imprescindíveis e urgentes: médicos, enfermeiras, bombeiros, policiais, etc.
            No entanto, em linhas gerais, a prática do jejum do Ramadã tem perdido muito do seu objetivo original, Andrew Rippin observa este processo de decadência: “Muçulmanos contemporâneos que participam do jejum, contudo, exibem sutis mudanças na interpretação de suas ações. Enquanto que no passado um sentido de valor penitente de jejuar estava certamente presente, isto tem sido menosprezado nas interpretações das décadas recentes. O jejum é praticado porque ele foi ordenado por deus, não por qualquer benefício individual que possa acontecer ao indivíduo em termos de seu destino na vida após a morte. Benefício moral no aqui e agora, contudo, é enfatizado. O jejum é um meio de nivelamento social e de reforçar noções de responsabilidade social. (...) Ainda mais, há um total sentido de unidade muçulmana celebrada durante o jejum, especialmente, nos aspectos festivos da vida noturna durante o mês” (Rippin, 1997: 132-3).
            De modo que, comparativamente, o jejum islâmico do Ramadã contrasta flagrantemente em motivo e em objetivo com outras tradições ascéticas que praticam o jejum, tal como as asceses ióguica e budista. Nestas últimas, o jejum é praticado com o fim de controlar a gula, de desapegar a mente, de desenvolver a capacidade de autocontrole e, sobretudo, de preparar o corpo e a mente para a prática da meditação prolongada (quem pratica meditação sabe que o jejum e a alimentação moderada auxiliam no desempenho meditativo, enquanto que o funcionamento digestivo perturba o relaxamento e a concentração, de modo que nunca se pratica meditação após uma refeição). Portanto, é uma prática com objetivos físico-psicológicos de preparação para uma tarefa ainda maior, a meditação, isto é, interna; enquanto que o jejum do Ramadã é uma prática externa e formal, a fim de atender aos mandamentos de submissão e de obediência, cercada de pompa e exibicionismo religioso.

Os efeitos colaterais

            Existem publicações que apontam os efeitos fisiológicos e psicológicos do jejum do Ramadã nos praticantes. Um resumo de pesquisas foi publicado no Journal of Social Bahavior and Personality, em 2004, por Masahiro Tida e Kanehisa Morimoto, com o título de Ramadan Fasting: Effect on Healthy Muslims (O Jejum do Ramadã: Efeito Sobre os Mulçumanos Saudáveis). O estudo começa observando que a mudança dramática nos hábitos alimentares causa efeitos fisiológicos e psicológicos (Morimoto, 2004: 13). Algumas pesquisas apontam para uma perda de peso, desidratação; diminuição da gordura corporal, do batimento cardíaco, do consumo de oxigênio e do metabolismo, enquanto outras pesquisas não apontam a perda de peso. As diferenças podem ser atribuídas ao costume local e a qualidade da comida.
            Os principais efeitos fisiológicos do jejum são: hemoconcentração (diminuição do conteúdo líquido que resulta no aumento de células vermelhas no sangue) e desidratação. A diminuição no consumo de líquidos é a causa destas condições de desequilíbrio líquido. No estágio inicial da desidratação, os sinais clínicos são: taquicardia, cansaço e indisposição, dores de cabeça e náusea (Morimoto, 2004: 13). O aumento de ácido úrico no sangue é também notável, porque a hiperuricemia (alta presença de ácido úrico no sangue) é uma das conhecidas sequelas do jejum prolongado. Ademais, resultados indicam que há um impressionante aumento no risco de aterosclerose (formação de placas no interior de artérias e veias), em virtude do aumento do colesterol que favorece esta doença, pelo consumo de alimentos durante uma única e longa refeição noturna (Morimoto, 2004: 13).

Efeitos psicológicos

            Alguns estudos têm mostrado os seguintes sintomas durante o período do dia: falta de concentração, cansaço, irritabilidade, sonolência e outros sintomas indesejáveis, que podem ter efeitos negativos na vida profissional e escolar dos indivíduos. Um aumento nos acidentes de trânsito tem sido registrado. Estes efeitos podem acontecer em razão da diminuição das horas de sono durante o Ramadã e a hipoglicemia (diminuição da glicose no sangue) causada pelo jejum. Também, fumantes ficam mais irritados devido à abstinência do hábito de fumar. Geralmente, os homens tendem a ficar mais irritados que as mulheres durante o Ramadã. Estes efeitos pioram ainda mais quando o mês do Ramadã cai na estação do verão, época na qual os dias são mais longos e a temperatura mais quente (Morimoto, 2004: 13).


Bibliografia

ALI, Abdullah Yusuf (tr.). The Holy Quran. Lahore: The Ahmadiyya Anjuman Ishaat Islam, 1934.
ALI, Maulana M. (tr.). A Manual of Hadith. Lahore: The Ahmadiyya Anjuman Ishaat Islam, 1944.
ARBERRY, Arthur J. (tr.). The Koran Interpreted. New York: Macmillan Publishing Co., 1955.
BARKIA, Ahmed, Kamel Mohamed, Maha Smaoui, Nouri Zouari, Mohamed Hammami and Moncef Nasri. Change of Diet, Plasma Lipids, Lipoproteins and Fatty Acids During Ramadan: a Controversial Association of the Considered Ramadan Model with Atherosclerosis Risk. Journal of Health, Population and Nutrition, volume 29, issue 05, October: 2011, p. 486.
CHALLITA, Mansour (tr.). O Alcorão. Rio de Janeiro: ACIGI, 2002.
CHITTICK, William C. and Sachiko Murata. The Vision of Islam. St. Paul: Paragon House, 1994.
MORIMOTO, Kanehisa and Masahiro Toda. Ramadan Fasting: Effect on Healthy Muslims. Journal of Social Behavior and Personality, volume 32, issue 01, January: 2004, p. 13.
PALMER, E. H. (tr.). The Qur’an – Sacred Books of the East, vols. 6 and 9. Delhi: Motilal Banarsidass, 1994.
PETERS, Francis E. A Reader on Classical Islam. Princeton: Princeton University Press, 1994.
RIPPIN, Andrew. Muslims: Their Beliefs and Pratices, vol. 2. London: Routledge, 1997.
ROBINSON, Neal. Islam: A Concise Introduction. London/New York: RoutledgeCurzon, 2003.
WARRAQ, Ibn (ed.). The Quest for the Historical Muhammad. Amherst: Prometheus Books, 2000.
WILLIAMS, John A. Islam. New York: George Braziller, 1961.  

sexta-feira, 29 de junho de 2012

|ESTUDO| O Início do Papado por um Pescador Analfabeto


Octavio da Cunha Botelho






Pintura mostrando Jesus entregando a chave do céu a Pedro
Preparado para ser postado especialmente neste Dia de São Pedro, 29/06, o estudo abaixo mostra como é curioso saber que o papado da religião com o maior número de seguidores no mundo, o Cristianismo, que apesar da grandiosidade e da riqueza, teve a origem da sua tradição num pescador analfabeto, o apóstolo Pedro. Ademais, expõe que a sua liderança, nos primeiros anos da Igreja, tornou-se uma dúvida depois da descoberta de textos perdidos por muitos séculos. Alguns historiadores concluem que a ideia da liderança do apóstolo Pedro, desde o início do Cristianismo, foi uma manipulação ideológica arquitetada pela corrente dominante, que fez apagar a rivalidade com outros líderes, sobretudo Maria Madalena, e desaparecer os textos que apresentavam as ideias contrárias. Ademais, o estudo aponta o ambiente culturalmente precário da região onde surgiu o Cristianismo, bem como o posicionamento dos seus primeiros adeptos nas camadas culturais mais baixas da sociedade na época.
Parece que o primeiro papa alfabetizado, de quem se tem registro, foi Clemente I, que foi bispo em Roma de 91 a 101 e.c., sucedendo o apóstolo Pedro (morto em 64 e.c.), a Lino (68-78 e.c.) e a Anacleto (79-91 e.c.), portanto o quarto papa na sequência sucessória (Kelly, 1988: 05-8). A alfabetização de Clemente I é atestada, pois deixou documentos escritos (cartas e homilias).

O analfabetismo na Antiguidade

            Grande parte do que conhecemos sobre a Antiguidade é conhecida pela literatura registrada pelos escritores daquela época. Em vista da quantidade de textos e da beleza de muitos deles, muitos leitores atuais são levados a pensar que o letramento era um fato comum e disseminado entre a população antiga.  Nada mais enganoso. Pesquisas apontam que “no mundo antigo, a maioria das pessoas não sabia ler” (...) e “que aquilo que conhecemos por letramento universal é um fenômeno moderno que só surgiu com o advento da Revolução Industrial” (...) “até o período moderno, quase todas as sociedades apresentavam apenas uma pequena minoria da população capaz de ler e escrever” (Ehrman, 2006: 47). Bart D. Ehrman continua: “Isto se aplica até mesmo às sociedades antigas que estimulavam a leitura e a escrita – por exemplo, a Roma dos primeiros séculos cristãos, ou até mesmo a Grécia do período clássico” (Ehrman, 2006: 47). Em seguida ele aponta que: “o melhor e mais influente estudo sobre o letramento nos tempos antigos, feito pelo professor da Universidade de Columbia, William Harris, indica que nos tempos e lugares mais propícios – por exemplo, Atenas à altura do período clássico do século V a.e.c. – as taxas de alfabetização raramente atingiam de 10 a 15% da população. Transpondo os números, isto significa que, nas melhores condições, de 85 a 90% da população não podia ler ou escrever. No século I cristão, na época do Império Romano, as taxas de alfabetização podem ter sido mais irrisórias ainda” (Ehrman, 2006: 47-8).  Enfim, a alfabetização, e ainda bem mais a erudição, eram privilégios de muitos poucos na Antiguidade.

A precariedade cultural dos primeiros cristãos

             Se o índice de analfabetismo era alto, mesmo nos períodos e nos lugares favoráveis à cultura, tal como indicados acima, imagine na região da Palestina do século I, tão distante dos grandes centros culturais da época (Atenas, Roma, Alexandria e Pérgamo, bem como mais distante ainda dos centros culturais da Índia e da China – o grande centro cultural dos persas, Persépolis, já tinha sido destruído). Aquela era uma região situada na periferia cultural do Império Romano. Quando lemos sobre pessoa erudita daquela região e época, seu saber se restringia ao conhecimento religioso, enquanto que nos grandes centros culturais já se cultivada e ensinava a erudição filosófica, científica, artística, literária, poética, teatral, política e retórica. Portanto, naquela região, o pouco de saber que existia era o equivalente exclusivo ao saber religioso, enfim, a religião era a única erudição, ou seja, só existia educação religiosa, pois esta deve ser a razão de não se ter registro da existência de algum texto (oral ou escrito), que não seja religioso, naquela época e região.
Foto aérea do Vaticano
         Que o Cristianismo surgiu e se desenvolveu nos primeiros anos em comunidades formadas por cristão das classes culturais mais baixas, está confirmado em alguns dos primeiros documentos. Inicialmente era uma religião de incultos dirigida para os também incultos, até que, gradativamente, membros mais instruídos passaram a integrar suas comunidades. Uma das mais interessantes fontes que constata o baixo nível cultural dos primeiros cristãos é a obra Contra Celso (Adversus Celsus), do final do século II e.c., de autoria de Orígenes, um dos mais importantes teólogos dos primeiros séculos. Nela Orígenes contesta as críticas de Celso ao Cristianismo, numa obra perdida denominada A Palavra Verdadeira. “Uma das imputações era que os cristãos são pessoas ignorantes, de baixa extração. O que é impressionante é que, em sua réplica, Orígenes não nega isso” (Ehrman, 2006: 51). Veja as indicações da precariedade cultural dos cristãos por Celso: “Eis a palavra de ordem deles (os cristãos): para trás quem tem cultura, quem tem sabedoria, quem tem discernimento. (...) Mas se tiver algum ignorante, insensato, inculto, uma criança, que se aproxime com coragem” (Contra Celso, 3.44 – Ehrman, 2006: 51). Estes últimos eram os alvos preferidos dos cristãos para a conversão. Em seguida, ele prossegue dizendo que os cristãos “jamais se aproximam de uma assembleia de homens prudentes com a audácia de nela revelar seus mistérios. Mas, logo que percebem a presença de adolescentes, de um bando de escravos, de um ajuntamento de idiotas, para lá correm a se exibir” (Contra Celso, 3.50 – Ehrman, 2006: 51). Mais adiante aponta os ofícios braçais exercidos pelos cristãos: “cardadores, sapateiros, pisoeiros”, ou seja: “pessoas das mais incultas e rudes”. E o silêncio dos cristãos diante de pessoas cultas: “Diante de mestres cheios de experiência e discernimento não ousam abrir a boca. Mas é só surpreenderem seus filhos acompanhados de mulheres incultas e idiotas, que começam a falar coisas estranhas sem consideração com o pai ou com os preceptores... os outros não passam de impertinentes estúpidos. Eis aí com que palavras os persuadem” (Contra Celso, 3.55 – Ehrman, 2006: 51). Sobre esta passagem, Orígenes contesta que os cristãos “são sábios, mas são sábios no que refere a deus, não no que refere às coisas do mundo. Em outros termos, ele não nega que a comunidade cristã seja amplamente constituída de classes de baixa extração, pouco instruídas” (Ehman, 2006: 51). Concluindo, a única cultura existente naquela época e naquela região, afastada dos centros culturais, era a cultura religiosa, de modo que somente os religiosos eram cultos. Bem, como diz um ditado popular: “numa terra de cegos, quem tem apenas um olho é rei”, podemos imaginar como deveria ser o deslumbramento dos analfabetos e dos cristãos incultos diante dos poucos religiosos letrados da época.
            Outro exemplo da precariedade cultural dos primeiros cristãos está num texto cristão do século II e.c., o Pastor de Hermas, num episódio quando Hermas afirma não se recordar de todo um livro que lhe foi ditado, então ele pede para fazer uma cópia manuscrita: “Eu o tomei (o livro) e fui para outra parte do campo, onde copiei todo o conjunto, letra por letra, mesmo não sabendo distinguir as sílabas. E, no final, quando completei as letras do livro, ele foi...” (Pastor de Hermas, 5.4 – Ehrman, 2006: 58). Este texto foi muito estimado nos primeiros anos do Cristianismo, tanto que chegou a fazer parte do Novo Testamento em alguns dos primeiros códices cristãos (Ehrman, 2006: 57). O analfabetismo de Hermas é explícito: “copiei todo o conjunto, letra por letra, mesmo não sabendo distinguir as sílabas”, e representa a mais clara menção ao analfabetismo dos primeiros cristãos. Em vista desta precariedade, Bart D. Ehrman afirma que as transcrições dos primeiros manuscritos, por copistas cristãos, estão repletas de erros. Orígenes observou esta deficiência: “As diferenças entre os manuscritos se tornaram gritantes, ou pela negligência de alguns copistas ou pela audácia perversa de outros...” (Contra Celso, 2.27 – Ehrman, 2006: 62). Para solucionar isto, algumas primeiras comunidades cristãs contratavam copistas profissionais para copiarem seus manuscritos, até que copistas cristãos educados e bem treinados gradualmente ingressaram na Igreja. Em suma, estes são exemplos do primitivo ambiente cultural, no qual o Cristianismo surgiu, e da precariedade intelectual dos primeiros adeptos cristãos.
Mais um exemplo da ignorância dos primeiros compositores de textos cristãos, agora num texto apócrifo, aparece no trecho final do Evangelho de Pedro, quando este apóstolo estando em Jerusalém afirma: “Eu, Simão Pedro, de minha parte, e André, meu irmão, pegamos nossas redes e dirigimo-nos ao mar, indo em nossa companhia Levi, filho de Alfeu, quem o senhor...” (XIV.60 – Elliott, 1993: 158 e Ehrman, 2003: 34). A ignorância geográfica do autor deste evangelho é absurda, uma vez que Jerusalém não é banhada pelo mar, portanto não existe razão para a presença de redes de pesca naquela cidade.

A disputa pela liderança entre o apóstolo Pedro e Maria Madalena

Pedro (morto em 64 e.c.) foi considerado pela Igreja como o príncipe dos apóstolos e o primeiro papa. Seu nome original era Simon, português Simão, depois recebeu o nome (talvez apelido) de Pedro (latim: Petrus), que é a forma masculinizada do substantivo feminino em latim petra (pedra), do aramaico cephas e do grego petros. Foi um dos primeiros seguidores de Jesus e lhe foi concedido o papel de líder e de porta-voz dos apóstolos conforme o Novo Testamento. Estava presente nos principais eventos na vida de Jesus segundo os Evangelhos Canônicos (Kelly, 1998: 05). Tanto o evangelho canônico de Mateus (4.18) como o apócrifo Evangelho de Pedro (XIV.60) concordam que ele era um pescador. Uma vez que seus atos são bem conhecidos dos leitores da Bíblia, não é necessária a repetição aqui.
            Curiosamente, a literatura apócrifa de Pedro, recuperada até hoje, é bem mais numerosa que a canônica. Se reunidos os textos mais completos e os fragmentos, existem os seguintes documentos:
a) Ministério:
- O Evangelho de Pedro (Elliott, 1993: 150-8 e Ehrman, 2003: 31-4)
- A Pregação de Pedro – Kerigma Petrou (Elliott, 1993: 20-3 e Ehrman, 2003: 236-8)
b) Atos:
- Os Atos de Pedro (Elliott, 1993: 390-426 e Ehrman, 2003: 135-54)
- Os Atos de Pedro e dos Doze Apóstolos (Robinson, 2007: 248-54)
c) Apocalipse:
- O Apocalipse de Pedro (Elliot, 1993: 593-612 e Ehrman, 2003: 280-7)
- O Apocalipse Copta de Pedro (Ehrman, 2003: 78-81 e Robinson, 2007: 319-24)
d) Epistolas:
- A Carta de Pedro a Felipe (Ehrman, 2003: 195-200 e Robinson, 2007: 367-72)
- A Carta de Pedro a Tiago e sua Recepção (Ehrman, 2003: 191-4)
- e A Epistula Petri (Elliott, 1993: 433-9). 
            Agora, o que precisa ser informado e também discutido é que a aceitação da liderança de Pedro não era uma unanimidade nos primeiros anos do Cristianismo, tal como transmite o Novo Testamento e os relatos dos primeiros padres, conservados pela Igreja Católica. Após a descoberta dos manuscritos de Nag Hammadi, sobretudo a do Evangelho de Maria Madalena, os historiadores foram obrigados a repensar a posição de Pedro, tanto no tempo do ministério de Jesus, como também nos primeiros anos do Cristianismo (D’Angelo, 1999: 105-6). Maria Madalena é altamente estimada nos textos gnósticos, nalgumas passagens chega a aparecer como uma discípula predileta de Jesus, a qual recebia ensinamentos secretos que eram ocultados dos outros apóstolos. O Evangelho de Maria Madalena diz: “Maria disse: O que a vós está oculto eu vos proclamarei” (Ehrman, 2003: 36 e Wilson, 2007: 443). Ela é elogiada em alguns trechos: “Pedro disse a Maria: irmã, nós sabemos que o Salvador amava a ti mais que todas as mulheres” (Evangelho de Maria – Ehrman, 2003: 36 e Wilson, 2007: 443) e numa passagem do Pistis Sophia dos gnósticos: “Jesus, o compassivo, respondeu e disse à Maria: Maria, tu és abençoada, a quem eu ensinarei todos os mistérios das alturas (...) tu, cujo coração está elevado ao reino do céu mais que de teus irmãos” (Mead, 1921: 20).
Ela participa ativamente em alguns diálogos, deixando até transparecer um papel de liderança. Em razão disto, seu relacionamento com Pedro não parecia ser muito amistoso. Nas palavras de Karen L. King: “O confronto de Maria e Pedro, uma sequência também encontrada em O Evangelho de Tomé, Pistis Sophia e O Evangelho dos Egípcios, reflete algumas tensões do Cristianismo do século II. Pedro e André representam as posições ortodoxas que negam a validade da revelação esotérica e rejeita a autoridade da mulher no ensinamento. O Evangelho de Maria ataca ambas as posições de frente por meio da figura de Maria Madalena. Ela é a amada do Salvador, possuidora do conhecimento e do ensinamento superior àquelas da tradição apostólica pública” (King, 2007: 442).  Veja como Pedro discrimina Maria no Evangelho de Tomé: “Simão Pedro disse a ele (Jesus): Permite que Maria nos deixe, pois as mulheres não são dignas da vida”. Então a estranha resposta de Jesus: “Jesus disse: eu mesmo devo guiá-la para fazer dela um homem, para que ela possa se tornar um espírito vivo semelhante a vós homens. Pois, cada mulher que fizer dela mesma um homem, entrará no reino do céu” (Ehrman, 2003: 28 e Lambdin, 2007: 125). O diálogo se transforma em discussão hostil no Evangelho de Maria, quando Maria fala de alguns ensinamentos secretos que recebeu de Jesus. Ao terminar seu discurso, André a contesta com as seguintes palavras: “Eu pelo menos não acredito que o Salvador disse isto. Pois, certamente, esses ensinamentos são ideias estranhas”. Pedro então entra na coversa e questiona: “Ele (Jesus) realmente falou com uma mulher sem o nosso conhecimento e não abertamente conosco? Vamos todos mudar de posição e ouvi-la? Ele preferiu a ela a nós?” Então Maria responde a Pedro: “Meu irmão Pedro, o que pensas? Tu crês que eu mesma inventei estas coisas no meu coração, ou que estava mentindo sobre o Salvador?” Em seguida Levi entra na conversa e acalma o clima (Ehrman, 2003: 37 e Wilson, 2007: 444).

O analfabetismo do apóstolo Pedro

Imagem de S. Pedro
A clara referencia ao analfabetismo do apóstolo Pedro aparece em Atos dos Apóstolos 4.13: “Vendo eles a coragem de Pedro e de João, e considerando que eram homens sem instrução e idiotas, admiravam-se”. No original grego consultado, a expressão traduzida como “sem instrução” é agrammatoi, que Jerônimo na Vulgata traduziu para o Latim como sine litteris e a palavra “idiotas” no Grego é idiotai e no Latim idiotae. A tradução desta última palavra é especialmente curiosa nas Bíblias, uma vez que os tradutores e os editores procuram encobrir a carga pejorativa do seu significado etimológico (idiotai), utilizando de um artifício eufemístico, traduzindo-a então por outra palavra de menor carga humilhante (ex: sem estudos, sem conhecimentos, sem instrução, etc.), mas nunca como ‘idiotas’ ou ‘analfabetos’.
Uma discutida menção do analfabetismo de Pedro aparece na saudação final de sua Primeira Epístola, 5.12: “Por meio de Silvano, que estimo como um irmão fiel, vos escrevi resumidamente...”.  Intérpretes discutem se na frase “por meio de Silvano” (Grego: dia siluanou e Latim: per silvanum) o sentido é de que a carta foi escrita por Pedro e apenas enviada por Silvano, ou mesmo, escrita por outro escriba e enviada por Silvano ou, também, foi ditada por Pedro e redigida por Silvano. Para aqueles que levam em conta a passagem, na qual ele é mencionado como analfabeto nos Atos dos Apóstolos (4.13), as duas últimas hipóteses são as mais plausíveis. Para os que não acreditam que Pedro era analfabeto, o fundamento é a expressão “escrevi” (Grego: egrafa e Latim: scripsi), a qual é entendida referir-se à redação do próprio Pedro. Acontece que, segundo os historiadores, na Antiguidade, uma vez que o número de analfabetos era grande, era comum contratar o trabalho de redação de escribas que, quando estes últimos redigiam as cartas ou comunicados, escreviam como que se as cartas fossem escritas pelas pessoas que a ditavam, ou seja, os remetentes. De modo que, assim, parecia que quem tinha escrito a carta era a pessoa analfabeta, a qual, na verdade, tinha apenas ditado a carta para o escriba redigir. Agora, a passagem em Atos dos Apóstolos 4.13 é muito explícita quanto ao analfabetismo de Pedro, somada ao fato de ser um pescador, bem como aos altos índices de analfabetismo da Antiguidade, maior ainda naquela região afastada dos grandes centos culturais, são mais favoráveis à conclusão de que Pedro era analfabeto e que, certamente, teve de ditar a carta para a redação de Silvano.


Bibliografia

D’ANGELO, Mary Rose. The Case of Mary Magdalene em Women & Christian Origins. New York/Oxford: Oxford University Press, 1999, 105-28.
DONALDSON, James and Alexander Roberts (eds.). Early Church Fathers – Ante-Nicene Fathers, vols. I, II, III e IV. Edinburg: T&T Clark, 1885, reprint Grand Rapids: Wm. B. Eerdman Publishing Company.
EHRMAN, Bart D. Lost Scriptures: Books that did not make it into the New Testament. New York: Oxford University Press, 2003.
_______________O Que Jesus Disse? O Que Jesus Não Disse? Quem Mudou a Bíblia e Por Quê? Rio de Janeiro: Prestígio Editorial, 2006.
ELLIOTT, J. K. The Apocryphal New Testament: A Collection of Apocryphal Christian Literature in an English Translation. Oxford: Clarendon Press, 1993.
FARROW, John. The Pageant of the Popes. New York: Sheed & Ward, 1942.
KELLY, J. N. D. Oxford Dictionary of Popes. Oxford: Oxford University Press, 1988.
KING, Karen L. O Evangelho de Maria, Introdução em A Biblioteca de Nag Hammadi, James M. Robinson (ed.). São Paulo: Madras Editora, 2007, p. 442-3.
LAMBDIN, Thomas (tr.). O Evangelho de Tomé em A Biblioteca de Nag Hammadi, James M. Robinson (Ed.). São PAULO: Madras editora, 2007, p. 116-25.
MEAD, George R. S. (tr.) Pistis Sophia. London: J. M. Watkins, 1921.
ROBINSON, James M. (ed.).  The Nag Hammadi Library in English. Leiden: E. J. Brill, 1988. Edição brasileira: A Biblioteca de Nag Hammadi. São Paulo: Madras Editora, 2007.
WILSON, R. McL e James Brashler (trs.). Evangelho de Maria em A Biblioteca de Nag Hammadi, James M. Robinson (ed.). São Paulo: Madras Editora, 2007, p. 443-4.     

quarta-feira, 20 de junho de 2012

|ESTUDO| A Maçonaria e sua Origem com os Pedreiros Analfabetos


Octavio da Cunha Botelho






Neste próximo Domingo irá se comemorar mais um Dia de São João Batista, apesar de ser mais conhecida pela comemoração dos cristãos, esta data (24 de Junho) é também importante para a história da Maçonaria, pois nela comemora-se o aniversário da reunião entre representantes de quatro lojas maçônicas de Londres, na taberna Goose and Gridiron, para a fundação da Grande Loja de Londres em 24 de Junho de 1717 (Mazet, 1992: 257; Cerinotti, 2004: 14 e Jacob, 2007: 11), depois reformulada como Grande Loja Unificada da Inglaterra em 1813, com a adesão da Loja de York, inicialmente descontente. A escolha desta data para a reunião não foi por acaso, mas em razão da afinidade com este santo cristão, admirado por outras sociedades esotéricas, sobretudo pelos Templários, as quais os maçons da época supunham serem fontes da Maçonaria (Cerinotti, 2004: 109). Mesmo não tendo jurisdição universal, pois a Maçonaria está fragmentada em incontáveis divisões (no Brasil, segue-se mais o Grande Oriente, de origem francesa), a multiplicidade aumenta ainda mais quando se leva em contas as lojas irregulares, este foi um marco importante na história da Maçonaria Moderna.
Agora, quem conhece os fascinantes símbolos e os pomposos rituais, bem como a suntuosidade dos templos (lojas) e a celebridade dos adeptos da atual Maçonaria, terá dificuldade em acreditar que esta faustosa sociedade secreta teve sua origem numa corporação (craft) de pedreiros analfabetos, a qual pode ser a razão da conservação de seus ensinamentos, durante a fase da Maçonaria Operativa, exclusivamente através de símbolos e de ritos, ao invés também de textos escritos.  
As pesquisas sobre a origem da Maçonaria estão envolvidas numa teia intricada de teorias controvertidas, desde as mais delirantes até as mais sóbrias (Cerinotti, 2004: 8-11). O assunto ainda carece de mais pesquisa acadêmica, quando comparado com a grande quantidade de estudos sobre outras tradições, pois o número de estudos acadêmicos é escasso, de modo que a quantidade de publicações pelas mais importantes universidades do mundo é muito pequena. Tentando contornar estes obstáculos, o estudo abaixo pretende apontar, em meio a um oceano de relatos fabulosos (para conhecer um exemplo, ver: Anderson, 1734: 07-45), a origem iletrada da corporação dos Pedreiros Livres (Free-masons), durante o período denominado pelos pesquisadores de Maçonaria Operativa, a partir dos poucos estudos crítico-históricos, independentes das interpretações da tradição e da propaganda maçônicas.

Etimologia da denominação Franco Maçonaria

            Do inglês Freemasonry e do francês Franc Maçonnerie, não existe consenso entres os pesquisadores quanto à origem do termo. Alguns apontam que significa que estes pedreiros (do francês: maçon) e construtores medievais, em virtude do ofício, tinham salvo-conduto das autoridades para transitarem livremente de uma região para outras, conforme as obras exigiam seu trabalho, portanto a denominação de pedreiros livres (free-masons). Outros acreditam que receberam esta denominação em razão do caráter mais especializado das suas habilidades de ofício, portanto eram profissionais livres, para diferenciá-los dos escravos que, no passado, eram a mão de obra majoritária nas edificações. Ainda, outra etimologia é apontada na palavra inglesa free stone (pedra de cantaria), aquela pedra particularmente adequada ao trabalho do entalhador (Cerinotti, 2004: 14-6).
            Qualquer que seja a etimologia, Franco Maçonaria é a denominação para a corporação de pedreiros e construtores que, a partir de certo momento, ainda desconhecido pelos historiadores, quando seus membros passaram a se reunirem nos alojamentos (lojas, do inglês: lodge e do francês: loge) nos canteiros das obras, além da prática habitual das refeições e do descanso, para trocarem informações sobre os simbolismos e os segredos por trás das artes e da arquitetura nas catedrais e nos mosteiros que edificavam, que os levaram, em seguida, com o acúmulo de informações secretas, a praticarem rituais iniciáticos nestes alojamentos (lojas), para a admissão de novatos e a transmissão secreta dos ensinamentos. Em outras palavras, uma corporação que combinava o ofício da construção com a construção do caráter de seus membros sob o véu do segredo. Parece que, segundo os manuscritos mais antigos, o segredo foi utilizado inicialmente apenas para a salvaguarda das técnicas do ofício da construção, depois se estendeu para o objetivo de velar os símbolos, as senhas e os rituais maçônicos (Mazet, 1992: 251), daí se desenvolveu o espírito corporativista, que até hoje marca tanto o caráter da Maçonaria.

Maçonaria e religião

             Os maçons são unânimes em afirmar que a Maçonaria não é uma religião, a definição clássica é: “um peculiar sistema de moralidade, velado em alegoria e ilustrado por símbolos” (Mazet, 1992: 248). Apesar da recusa, os maçons insistem que que todo candidato deve ser um religioso, pois não é possível ingressar na sociedade sem acreditar em deus (Anderson 1734: 48 e Cerinotti, 2004: 102). Os juramentos dos adeptos são feitos diante de um livro religioso (Bíblia, etc.), conforme o regulamento da jurisdição. Enfim, a Maçonaria é uma sociedade que não se considera religiosa, mas aos seus adeptos se solicita que sejam religiosos.
            Agora, o que leva os maçons a pensarem que a Maçonaria não é uma religião deve-se ao conceito circunscritamente cristão de religião, entretanto, quando se expande o conceito de religião para além dos limites do teísmo, a Maçonaria demonstra traços muito comuns com outras tradições não teístas. Por exemplo, o Hinduísmo também tem um sistema de moral (dharma shastra), grande parte das suas concepções estão veladas por símbolos, concede iniciações e, ademais, pratica uma quantidade de ritos muito maior que a Maçonaria. Os maçons não são teístas, mas sim deístas, a realidade suprema é o Grande Arquiteto do Universo (GADU), de maneira que, na Maçonaria, não existe cultos de louvor, adoração ao senhor, orações, súplicas pela graça divina, romaria, bem como sacramentos de batismo, de casamento, etc. Em suma, o conceito de religião é controvertido, porém, conforme a abrangência, a Maçonaria apresenta elementos tão comuns com as religiões em geral, que se torna difícil excluí-la do rol das religiões, sobretudo quando se tem em mente que religião não é só teísmo, fé e devoção. Para resumir, a Maçonaria não se considera uma religião, mas, paradoxalmente, tudo nela tem origem e natureza religiosas.

Maçonaria Operativa e Maçonaria Especulativa (Moderna)

            A história da Maçonaria possui um crucial turning point, a transição de Maçonaria Operativa (composta exclusivamente de pedreiros e construtores) para a de Maçonaria Especulativa (composta de adeptos que não são mais pedreiros e construtores, portanto denominados de “maçons aceitos”). Esta transição aconteceu nos séculos XV, XVI e XVII e.c., quando houve uma redução drástica no número de construções de catedrais, de fortalezas e de mosteiros, bem como a expansão da Reforma Protestante, as quais resultaram em prejudicais consequências na corporação dos maçons. Consequentemente, perderam o elo com os padres da Igreja, que patrocinavam as construções, para então, buscarem trabalho em outras fontes, a fim de que a corporação sobrevivesse (Mazet, 1992: 253 e Jacob 2007: 12). Foi nestas circunstâncias que a Maçonaria, de uma corporação exclusivamente constituída por pedreiros e mestres de obra, abriu as portas para a entrada de membros de fora da profissão.
            Estes novos adeptos, os quais eram intelectuais, pessoas da nobreza, profissionais de outras áreas, portanto candidatos bem mais instruídos, ficaram fascinados com a descoberta de que os maçons guardavam muitos segredos antigos. Entretanto, ao mesmo tempo, por serem cultos, perceberam que os antigos maçons não guardaram, ou já tinham perdido, o significado por trás daqueles símbolos e ritos, daí que estes novos interessados sentiram a necessidade de especular e pesquisar sobre a origem dos mesmos. Foi então, a partir daí, que se iniciou o que é conhecido como Maçonaria Especulativa, quando elementos de outras tradições tais como a Cabala, a Rosa Cruz, a Alquimia, as Lendas de Cavaleiros Medievais e o Hermetismo foram infiltrados na Maçonaria, por obra destes novos membros aceitos. Especulação que resultou numa prolífera criação de novos graus, além dos antigos dois graus do período operativo (o grau de Aprendiz e o de Companheiro, já o grau de Mestre Maçom só se tem registro a partir do ano de 1770 – conhecidos como os três graus simbólicos), numa sucessão na qual os graus superiores tentam explicar, também através de símbolos e ritos, os graus anteriores, de modo que o candidato permanece na contínua expectativa de conseguir a explicação do simbolismo do seu grau no grau seguinte. Assim, com o tempo, a Maçonaria se transformou numa sociedade na qual o significado encoberto pelos seus símbolos e ritos é sempre explicado por outro símbolo e rito, de maneira que nunca se alcança uma explicação discursiva e exegética. Como interpretam alguns críticos, “um poço sem fundo onde nunca se encontra a água para saciar a sede”.
            Este processo de busca do significado da simbologia e de criação de novos graus continua até hoje, cujo resultado foi o surgimento de incontáveis lojas e ordens irregulares (aquelas não reconhecidas por uma Grande Loja ou por um Grande Oriente). Mas este critério de reconhecimento é vago, pois se os próprios fundadores da Maçonaria Moderna (Especulativa) tiveram de especular sobre o significado e a origem da Maçonaria que herdaram dos maçons operativos, nos séculos XVI e XVII, os quais eles julgaram como perdidos, não significa que a busca está concluída, pois eles mesmo herdaram uma tradição desprovida de exegese.

O fascínio pelo segredo

            As religiões têm início e crescem em razão da admiração e da fascinação de um grupo de seguidores pela mensagem, pelo carisma, pela santidade ou pelos milagres de um líder religioso, bem como por mitos e mistérios de relatos antigos, depois estes primeiros discípulos sobrevalorizam a mensagem, ao ponto de então criar um significado que é organizado em doutrinas e práticas, as quais só fazem sentido dentro da sua própria lógica, transformando este conjunto de doutrinas e práticas num sistema, para enfim organizar-se em instituição social. Com o surgimento da Maçonaria Moderna (Especulativa) não foi tão diferente, os novos candidatos ficaram fascinados, no período da transição, com a tradição dos maçons operativos, que eles atribuíam guardarem segredos antigos, e deste fascínio pelo segredo, a Maçonaria prosperou e diversificou-se, atualmente com milhares de adeptos pelo mundo (Cerinotti, 2004: 96-101).

A modalidade de analfabetismo da Maçonaria Operativa

            Os historiadores são unânimes em afirmarem que, durante a Antiguidade e a Idade Média, de 80% a 90% da população destas épocas era analfabeta. O alfabetismo era um privilégio de poucos, pois não existia o imenso sistema de educação em grande escala, aberto para todos, como atualmente. Porém, dentro desta grande população analfabeta, existiam os que eram apenas analfabetos funcionais (aqueles que só conseguiam ler ou escrever os assuntos dentro de sua ocupação funcional), bem como os que só eram treinados na sua profissão, através de um processo de treinamento, geralmente passado de pai para filho, o qual os historiadores da educação denominam, para diferenciar da educação priopriamente, de “aprendizagem do trabalho” ou de “tecnização do conhecimento” (Manacorda, 2006: 70-2, 106-10; 138-9 e 161-7). Este processo consistia inicialmente da aprendizagem das técnicas da profissão (artesãos, lavradores, carpinteiros, etc.) transmitida pelos pais aos filhos, sem a necessidade da alfabetização, até a formação das primeiras corporações de aprendizagem na Europa (Manacorda, 2006: 161-7).
            A corporação (craft) dos maçons operativos pode ter sido uma das primeiras corporações de aprendizagem a surgir, cuja transmissão não era aquela de pai para filho, mas de uma maçom para outro. Com isso os maçons operativos superavam em suas habilidades profissionais os outros trabalhadores do mesmo ofício, os escravos, daí a suposta origem da denominação “pedreiros livres” (free masons). Que os maçons operativos eram hábeis nas técnicas da construção, pois conheciam até Aritmética e Geometria que eram aplicadas nas construções, está bem confirmado, no entanto, fortes indícios levam a supor que eram despreparados, quanto à capacidade de ler ou de escrever textos. As principais pistas para tal suspeita estão na inexistência de escritos, de autoria de maçons, durante o período medieval, bem como a conclusão de Edmond Mazet de que: “... não é difícil adivinhar qual deve ter sido o conteúdo da Maçonaria Operativa na Idade Média. Ele só pode ter sido inteiramente cristão e certamente refletiu os ensinamentos dos padres; que é, foi fundado na Bíblia e na exegese bíblica, que os maçons não conheciam de ler o livro ou os comentários sobre ele, mas de ouvir os sermões dos padres sobre eles e de esculpir cenas históricas e simbólicas extraídas deles” (Mazet, 1992: 252).
Os escassos conhecimentos que temos da Maçonaria operativa da Idade Média são extraídos dos Old Charges (Antigos Deveres), sobretudo os dois textos mais antigos: o manuscrito Regius (1390 e.c.) e o manuscrito Crook (1450 e.c.), sendo que, curiosamente, ambos foram escritos por padres (Haywood, 1923b e Mazet, 1992: 251). Segundo E. Mazet, “eles contem (especialmente o Regius) um conjunto de instruções religiosas e morais que expressam o interesse dos padres em moralizar e catequizar os maçons” (Mazet, 1992: 251). Os Old Charges seguintes, que só aparecem a partir de 1583 e.c. (Mazet, 1992: 253), podem ter sido escritos por maçons. Portanto, mais uma evidência de que, quanto mais antiga a referência aos maçons operativos, maior a confirmação do seu analfabetismo. Enfim, sendo analfabetos, eles só podiam registrar através de símbolos e de ritos, o que aprendiam com os padres cristãos e com as esculturas que esculpiam nas catedrais, nas fortalezas e nos mosteiros.

Bibliografia

ANDERSON, James. The Constitutions of the Free-Masons. Printed London: 1723, reprinted Philadelphia: 1734; Online Eletronic Edition, Loncoln: University of Nebraska.
CERINOTTI, Angela. Maçonaria, São Paulo: Editora Globo, 2004.
HAYWOOD, H. L. Symbolical Masonry: An Interpretation of the Three Degrees. New York: George H. Doran Company, 1923a.
________________ The Old Charges of Freemasonry em The Builder. September, 1923b.
JACOB, Margaret C. Living the Enlightenment: Freemasonry and Politics in Eighteenth-Century Europe. New York/Oxford: Oxford University Press, 1991.
__________________The Origins of Freemasonry: Facts and Fictions. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2007.
MANACORDA, Mario A. História da Educação: da Antiguidade aos nossos dias. São Paulo: Cortez Editora, 2006.
MAZET, Edmond. Freemasonry and Esotericism em Modern Esoteric Spirituality. Antoine Faivre and Jacob Needleman (eds.). New York: Crossroad, 1992, p. 248-76.
PIKE, Albert. Moral and Dogma of the Ancient and Accept Scottish Rite of Freemasonry. Charleston: Supreme Council of the Thirty-Third Degree, 1871.
STEVENSON, David. The Origins of Freemasonry: Scotland's Century 1590 to 1710. Cambridge: Cambridge University Press, 2005.
WILMSHURS, W. L. The Meaning of Masonry. London: P. Lund, Humphries & Co, 1922.